quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Um pedido estranho!




Chegaram os dois. Um casal. Faziam um bonito par.
Ela, uma mulher ainda muito bonita e elegante, dir-se-ia encantadora. Gestos femininos. Mãos esguias, rematadas por umas unhas longas, muito bem pintadas. O vestido em tons de cinza fazia realçar o verde esmeralda de uns olhos grandes e ornados de belas e compridas pestanas, muito bem pintadas. Os lábios bem feitos, algo carnudos, mas não em demasia, eram de um rosa velho, transparente. A boca brilhava, parecia um doce, era convidativa. O cabelo louro caía-lhe  sobre os ombros estreitos em caracóis largos. O decote do vestido mostrava um pouco dos seus seios. Das orelhas pendiam uns brincos de prata em forma de coração invertido com lágrimas pendentes. O vestido era curto, mas não muito. Na cintura um cinto fino e nos pés umas botas também cinzentas. Nas costas do vestido, abria-se uma fresta do decote até à cintura que deixava ver um interior todo em renda preta. A fresta era fechada aqui e ali por laços cinzentos da cor do vestido. Tinha um ar de deusa. Não andava, pairava uns centímetros acima do chão.
Ele, talvez mais velho, não sei. Era ligeiramente mais alto do que ela. Cabelo ralo, castanho escuro, olhos cor de mel. A boca era um risco austero, muito direito, mal se lhe percebiam os lábios. As mãos eram grossas e as unhas muito curtas, dir-se-ia que as roía. Umas calças cinzentas, de corte clássico, uma camisa de seda cor de violeta, um casaco em tons de cinza e sapatos pretos, brilhantes.
Ele colocou-se junto à ombreira da porta e deu-lhe passagem. Enquanto ela deambulava pelo quarto como que a recordar, a tentar lembrar-se de algo, ele mantinha-se perto da porta, sorridente. Observava-a. Os seus olhos não a deixavam, acompanhavam cada passo, cada gesto... Ele não conseguia esconder: amava com todas as suas forças aquela mulher.
- Lembras-te? – perguntou-lhe com a voz um pouco alterada pela ansiedade.
- Sim... – respondeu-lhe.
- Muitos anos passaram, mas continuo a amar-te da mesma maneira... Não. Mais... é muito mais intenso o que sinto agora por ti.
Ela virou-se para ele, o seu olhar brilhante não deixava transparecer qualquer tipo de emoção.
- Queres fazer voltar o tempo que passou?
- Não. Quero voltar a ter-te como naquele dia, há vinte anos. Quero que me ames como naquele dia. Eu amo-te ainda mais! Eu tenho saudades de ti!
- Saudades de mim?!
- Tu percebes o que te quero dizer! Tu estás sempre comigo, mas não estás! E eu fui e sou, no fundo sou, tão feliz contigo!
- Estou sempre contigo.
- Fisicamente estás! Eu queria ser tão feliz contigo, aqui, como o fui há precisamente vinte anos. E queria passar mais vinte anos contigo. Eu não sei viver sem ti. Tu, pelo contrário, não precisas de mim para nada!
- Não digas disparates!
- Vou buscar uma coisa, não me demoro.
Ela assentiu com a cabeça. Ele dirigiu-se à porta, mantendo os olhos no rosto dela, nos olhos dela. Fechou a porta devagar.
Ela sentou-se na cama, olhou-me, passou as mãos pelo monograma, um M entrelaçado num J. Sorriu. Alisou-me os folhos e ficou com o olhar algo perdido nos desenhos lavrados na colcha.
O seu pensamento arrastou-a. Os seus olhos mostravam uma certa tristeza e na sua cabeça desenhava-se um emaranhado de ideias, de recordações, de memórias... juntavam-se palavras, formavam-se pensamentos. A confusão era tal naquela cabeça linda e loura que eram audíveis:
Hoje é dia de ser feliz, hoje e todos os dias!
Mas, por vezes, pergunto-me o que é mesmo a felicidade e as lágrimas teimam em escorrer-me pela cara. Já fui muitas vezes feliz. Sou-o na maior parte das vezes.
Sou bonita e elegante. Sou boa pessoa, não prejudico ninguém. Sou amiga dos meus amigos e se for preciso defendo-os com unhas e dentes. Tenho convicções e quando tenho razão não desisto e vou à luta, custe o que custar. Não me dobram facilmente! Mas, dou o braço a torcer, quando concluo que não tenho razão e, então, peço desculpa facilmente.
Mas, hoje é dia de comemorar! Comemorar o quê? O cativeiro?, como disse logo de manhã com o melhor e mais bonito dos meus sorrisos!
Comemorar o amor? Comemorar uma vida em comum com alguém, quando descobrimos que, afinal, temos tão pouco em comum?
A vida é, muitas vezes, feita de escolhas. Umas boas, outras más, outras... do mal o menos! Fiz boas escolhas e más, como toda a gente. Mas, deixei muitas vezes que escolhessem por mim. É muito mais fácil! Se correr mal, não participei nessas escolhas! Mentira! Não participei, mas dei o meu aval, quem cala, consente, não é?
E agora, depois de uns tantos anos a deixar algumas decisões em “mãos alheias”, a deixar que outros tomassem a rédeas da minha vida, sinto-me entre a espada e a parede. Quero sair, quero decidir, mas algo me impede. O quê?, não sei! Logo que saiba, tomarei uma decisão. E será que tomarei mesmo? E será que tomarei a decisão correcta?

A porta abriu-se suavemente. Ele entrou a sorrir, na mão trazia uma pequena caixa. Joelhou-se aos pés dela, pousou a caixa no chão e agarrou-lhe as mãos, afagou-lhas, levou-as aos lábios e olhando-a nos olhos, depositou uma série de beijos leves nas mãos que tentavam esgueirar-se... Acariciou-lhe os dedos esguios. Levou-os à boca e chupou-lhos um a um, mordiscou-lhos.
- Pára! – pediu-lhe.
- Não páro e se me fugires com as mãos, posso magoar-te – disse-lhe, olhando-a nos olhos.
- Trouxeste-me aqui para quê?
- Para te pedir uma coisa.
- Então pede e vamos embora! E era preciso trazeres-me aqui...
- Sim, era.
- Pede, então!
- Casa comigo.
Abriu os olhos de espanto, não estava a perceber aquele pedido.
- Nós somos casados!
- Eu sei, mas quero casar contigo outra vez. Caso-me contigo todos os dias da minha vida.
Tirou as alianças da caixa, colocou-as na palma a mão e disse:
- Caso-me contigo por mais vinte anos, depois casar-me-ei por outros vinte...
Ela estava atónita, a boca meio aberta, os olhos enormes de espanto, de admiração,  de estranheza, de assombro... Ficou paralisada, as palavras morreram-lhe todas na garganta, não conseguia articular nenhuma palavra, mas as lágrimas inundavam-lhe o verdor dos olhos. Ela pestanejava para afastar o líquido indiscreto, mas as gotas espreitavam pelo canto dos olhos à procura do melhor caminho para largarem a correr.
Enfiou-lhe a aliança no dedo inexpressivo, sem reacção e passou-lhe a dele, esticando-lhe o dedo anelar firme. Ela olhou-o nos olhos. Ele estava feliz e ela estava quase em pranto. Com os olhos nublados, enfiou-lhe o anel no dedo. As lágrimas rolaram e ele sorveu-lhas todas com beijos ternos, beijou-lhe as faces molhadas, os olhos, os lábios trémulos.
Ele pensava que era emoção, comoção... Ela estava aflita, angustiada...
E as palavras continuavam mortas, inertes, apagadas na garganta em nó. Não saíam, não queriam sair ou era ela que não as queria proferir.
Parecia mágico aquele momento, parecia irreal, retirado das páginas de um qualquer conto de fadas que termina sempre com “e viveram felizes para sempre”, só que o rosto dela era o espelho da aflição, de algum sofrimento também. Era o querer e o não querer. Era ter ali um homem bom, sensível, que a amava acima de todas as coisas... e... como lhe dizer... como confessar-lhe... que... já não o amava... dessa maneira. Que sentia apenas... um grande carinho... uma grande amizade... Que gostava da sua companhia... Que gostava que a fizesse rir... mas... mas... já não sentia amor. Não o queria magoar... isso nunca... Se lho digo... se lho digo... vai sofrer tanto!... Se... se não lho digo... vou sofrer tanto! Meu Deus, ajuda-me!
- Vamos ser felizes mais vinte anos?
- Hã
- Perguntei-te se vamos ser felizes mais vinte anos?
Tentava desenrodilhar as palavras, erguê-las, tentava colocá-las em fila, fazê-las marchar, correr... Mas, algo o impedia. E os pensamentos atropelavam-se-lhe na cabeça, digladiavam-se: “eu não posso fazer este homem sofrer”. “Ah, mas tu podes sofrer! Acaba logo com isso! Não arranjes desculpas.” “Hummm, afinal ainda o amas, deve ser isso, ainda o amas.” “Não amas nada, não podes amar duas pessoas ao mesmo tempo.”, “Não posso amar dois homens ao mesmo tempo?!”, “Não posso amar dois homens ao mesmo tempo?!”, “Não posso amar dois homens ao mesmo tempo?!”, “Não posso amar dois homens ao mesmo tempo?!”...
A frase, as palavras soavam, martelavam-lhe a cabeça, corriam de um lado para o outro desvairadas. Agarrou a cabeça com as duas mãos e gritou:
- Não! Não, não, não...
- Que se passa, estás bem?
- Quero sair daqui, preciso de apanhar ar.
- Ficaste muito emocionada, eu percebi, não estavas à espera...
- Leva-me daqui, por favor!
Ele ergueu-se, puxou-a pelos ombros, abraçou-a e levou-a. Já não flutuava, sentia-se pesada, mortificada.
- O ar vai fazer-te bem.
Beijou-lhe os cabelos e levou-a enlaçada para fora do quarto.