Chegaram os dois. Um casal. Faziam um bonito par.
Ela,
uma mulher ainda muito bonita e elegante, dir-se-ia encantadora. Gestos
femininos. Mãos esguias, rematadas por umas unhas longas, muito bem pintadas. O
vestido em tons de cinza fazia realçar o verde esmeralda de uns olhos grandes e
ornados de belas e compridas pestanas, muito bem pintadas. Os lábios bem
feitos, algo carnudos, mas não em demasia, eram de um rosa velho, transparente.
A boca brilhava, parecia um doce, era convidativa. O cabelo louro caía-lhe sobre os ombros estreitos em caracóis largos.
O decote do vestido mostrava um pouco dos seus seios. Das orelhas pendiam uns
brincos de prata em forma de coração invertido com lágrimas pendentes. O
vestido era curto, mas não muito. Na cintura um cinto fino e nos pés umas botas
também cinzentas. Nas costas do vestido, abria-se uma fresta do decote até à
cintura que deixava ver um interior todo em renda preta. A fresta era fechada
aqui e ali por laços cinzentos da cor do vestido. Tinha um ar de deusa. Não
andava, pairava uns centímetros acima do chão.
Ele,
talvez mais velho, não sei. Era ligeiramente mais alto do que ela. Cabelo ralo,
castanho escuro, olhos cor de mel. A boca era um risco austero, muito direito,
mal se lhe percebiam os lábios. As mãos eram grossas e as unhas muito curtas,
dir-se-ia que as roía. Umas calças cinzentas, de corte clássico, uma camisa de
seda cor de violeta, um casaco em tons de cinza e sapatos pretos, brilhantes.
Ele
colocou-se junto à ombreira da porta e deu-lhe passagem. Enquanto ela
deambulava pelo quarto como que a recordar, a tentar lembrar-se de algo, ele
mantinha-se perto da porta, sorridente. Observava-a. Os seus olhos não a
deixavam, acompanhavam cada passo, cada gesto... Ele não conseguia esconder:
amava com todas as suas forças aquela mulher.
- Lembras-te?
– perguntou-lhe com a voz um pouco alterada pela ansiedade.
- Sim...
– respondeu-lhe.
- Muitos
anos passaram, mas continuo a amar-te da mesma maneira... Não. Mais... é muito
mais intenso o que sinto agora por ti.
Ela
virou-se para ele, o seu olhar brilhante não deixava transparecer qualquer tipo
de emoção.
- Queres
fazer voltar o tempo que passou?
- Não.
Quero voltar a ter-te como naquele dia, há vinte anos. Quero que me ames como
naquele dia. Eu amo-te ainda mais! Eu tenho saudades de ti!
- Saudades
de mim?!
- Tu
percebes o que te quero dizer! Tu estás sempre comigo, mas não estás! E eu fui
e sou, no fundo sou, tão feliz contigo!
- Estou
sempre contigo.
- Fisicamente
estás! Eu queria ser tão feliz contigo, aqui, como o fui há precisamente vinte
anos. E queria passar mais vinte anos contigo. Eu não sei viver sem ti. Tu,
pelo contrário, não precisas de mim para nada!
- Não
digas disparates!
- Vou
buscar uma coisa, não me demoro.
Ela
assentiu com a cabeça. Ele dirigiu-se à porta, mantendo os olhos no rosto dela,
nos olhos dela. Fechou a porta devagar.
Ela
sentou-se na cama, olhou-me, passou as mãos pelo monograma, um M entrelaçado
num J. Sorriu. Alisou-me os folhos e ficou com o olhar algo perdido nos
desenhos lavrados na colcha.
O
seu pensamento arrastou-a. Os seus olhos mostravam uma certa tristeza e na sua
cabeça desenhava-se um emaranhado de ideias, de recordações, de memórias... juntavam-se
palavras, formavam-se pensamentos. A confusão era tal naquela cabeça linda e
loura que eram audíveis:
Hoje é dia de ser feliz, hoje e todos os dias!
Mas,
por vezes, pergunto-me o que é mesmo a felicidade e as lágrimas teimam em
escorrer-me pela cara. Já fui muitas vezes feliz. Sou-o na maior parte das
vezes.
Sou
bonita e elegante. Sou boa pessoa, não prejudico ninguém. Sou amiga dos meus
amigos e se for preciso defendo-os com unhas e dentes. Tenho convicções e
quando tenho razão não desisto e vou à luta, custe o que custar. Não me dobram
facilmente! Mas, dou o braço a torcer, quando concluo que não tenho razão e,
então, peço desculpa facilmente.
Mas,
hoje é dia de comemorar! Comemorar o quê? O cativeiro?, como disse logo de
manhã com o melhor e mais bonito dos meus sorrisos!
Comemorar
o amor? Comemorar uma vida em comum com alguém, quando descobrimos que, afinal,
temos tão pouco em comum?
A
vida é, muitas vezes, feita de escolhas. Umas boas, outras más, outras... do
mal o menos! Fiz boas escolhas e más, como toda a gente. Mas, deixei muitas
vezes que escolhessem por mim. É muito mais fácil! Se correr mal, não
participei nessas escolhas! Mentira! Não participei, mas dei o meu aval, quem
cala, consente, não é?
E
agora, depois de uns tantos anos a deixar algumas decisões em “mãos alheias”, a
deixar que outros tomassem a rédeas da minha vida, sinto-me entre a espada e a
parede. Quero sair, quero decidir, mas algo me impede. O quê?, não sei! Logo
que saiba, tomarei uma decisão. E será que tomarei mesmo? E será que tomarei a
decisão correcta?
A
porta abriu-se suavemente. Ele entrou a sorrir, na mão trazia uma pequena
caixa. Joelhou-se aos pés dela, pousou a caixa no chão e agarrou-lhe as mãos,
afagou-lhas, levou-as aos lábios e olhando-a nos olhos, depositou uma série de
beijos leves nas mãos que tentavam esgueirar-se... Acariciou-lhe os dedos
esguios. Levou-os à boca e chupou-lhos um a um, mordiscou-lhos.
- Pára!
– pediu-lhe.
- Não
páro e se me fugires com as mãos, posso magoar-te – disse-lhe, olhando-a nos
olhos.
- Trouxeste-me
aqui para quê?
- Para
te pedir uma coisa.
- Então
pede e vamos embora! E era preciso trazeres-me aqui...
- Sim,
era.
- Pede,
então!
- Casa
comigo.
Abriu
os olhos de espanto, não estava a perceber aquele pedido.
- Nós
somos casados!
- Eu
sei, mas quero casar contigo outra vez. Caso-me contigo todos os dias da minha
vida.
Tirou
as alianças da caixa, colocou-as na palma a mão e disse:
- Caso-me
contigo por mais vinte anos, depois casar-me-ei por outros vinte...
Ela
estava atónita, a boca meio aberta, os olhos enormes de espanto, de admiração, de estranheza, de assombro... Ficou
paralisada, as palavras morreram-lhe todas na garganta, não conseguia articular
nenhuma palavra, mas as lágrimas inundavam-lhe o verdor dos olhos. Ela
pestanejava para afastar o líquido indiscreto, mas as gotas espreitavam pelo
canto dos olhos à procura do melhor caminho para largarem a correr.
Enfiou-lhe
a aliança no dedo inexpressivo, sem reacção e passou-lhe a dele, esticando-lhe
o dedo anelar firme. Ela olhou-o nos olhos. Ele estava feliz e ela estava quase
em pranto. Com os olhos nublados, enfiou-lhe o anel no dedo. As lágrimas
rolaram e ele sorveu-lhas todas com beijos ternos, beijou-lhe as faces
molhadas, os olhos, os lábios trémulos.
Ele
pensava que era emoção, comoção... Ela estava aflita, angustiada...
E as
palavras continuavam mortas, inertes, apagadas na garganta em nó. Não saíam,
não queriam sair ou era ela que não as queria proferir.
Parecia
mágico aquele momento, parecia irreal, retirado das páginas de um qualquer
conto de fadas que termina sempre com “e viveram felizes para sempre”, só que o
rosto dela era o espelho da aflição, de algum sofrimento também. Era o querer e
o não querer. Era ter ali um homem bom, sensível, que a amava acima de todas as
coisas... e... como lhe dizer... como confessar-lhe... que... já não o amava...
dessa maneira. Que sentia apenas... um grande carinho... uma grande amizade...
Que gostava da sua companhia... Que gostava que a fizesse rir... mas... mas...
já não sentia amor. Não o queria magoar... isso nunca... Se lho digo... se lho
digo... vai sofrer tanto!... Se... se não lho digo... vou sofrer tanto! Meu
Deus, ajuda-me!
- Vamos
ser felizes mais vinte anos?
- Hã
- Perguntei-te
se vamos ser felizes mais vinte anos?
Tentava
desenrodilhar as palavras, erguê-las, tentava colocá-las em fila, fazê-las
marchar, correr... Mas, algo o impedia. E os pensamentos atropelavam-se-lhe na
cabeça, digladiavam-se: “eu não posso fazer este homem sofrer”. “Ah, mas tu
podes sofrer! Acaba logo com isso! Não arranjes desculpas.” “Hummm, afinal
ainda o amas, deve ser isso, ainda o amas.” “Não amas nada, não podes amar duas
pessoas ao mesmo tempo.”, “Não posso amar dois homens ao mesmo tempo?!”, “Não
posso amar dois homens ao mesmo tempo?!”, “Não posso amar dois homens ao mesmo
tempo?!”, “Não posso amar dois homens ao mesmo tempo?!”...
A
frase, as palavras soavam, martelavam-lhe a cabeça, corriam de um lado para o
outro desvairadas. Agarrou a cabeça com as duas mãos e gritou:
- Não!
Não, não, não...
- Que
se passa, estás bem?
- Quero
sair daqui, preciso de apanhar ar.
- Ficaste
muito emocionada, eu percebi, não estavas à espera...
- Leva-me
daqui, por favor!
Ele
ergueu-se, puxou-a pelos ombros, abraçou-a e levou-a. Já não flutuava,
sentia-se pesada, mortificada.
- O ar
vai fazer-te bem.
Beijou-lhe
os cabelos e levou-a enlaçada para fora do quarto.
