sábado, 26 de outubro de 2013

O maior segredo


Chegou o Outono e com ele o vento frio. O sol anda tímido, aparece meio envergonhado, desaparece... Parece estar a brincar permanentemente às escondidas. Folhas amarelecidas desprendem-se das árvores e andam num rodopio, bailando no ar, até que aterram suavemente no chão, outras são varridas para os vários cantos do jardim onde se amontoam à espera do jardineiro.
Eu ando, como o tempo, inibida... Não tenho ido para a varanda olhar o horizonte pintado de mil cores, tenho-me mantido recostada entre os braços do gentil travesseiro que me vai sussurrando palavras de amor que aprendeu com o último casal que pernoitou aqui. Estavam completamente apaixonados! Ainda me lembro do olhar de veneração dele... Voltarão, tenho a certeza! Eu gostaria que voltassem! Sou uma eterna e incorrigível romântica...
Quando vieram arrumar o quarto, ouvi a ruivinha dizer que viria um casal... Fico sempre curiosa! Ponho-me logo a fazer “filmes”, a compor uma história com personagens desconhecidas... Às vezes, saio-me bem e ela é mesmo loura e bonita e de olhos grandes e verdes, ou é morena, de olhos de veludo, cor de avelã... e eles são simpáticos, com uma voz meiga e, sobretudo, muito ternos e carinhosos. Outras vezes, engano-me completamente! Mas vou-me divertindo...

A porta abriu-se com mais força do que a necessária e bateu contra a parede. Ele puxava uma pequena mala tão desajeitadamente que embateu contra a ombreira da porta, enrodilhou o tapete... Estava nervoso! O rosto mostrava algum constrangimento, não parecia muito à vontade. Olhou em volta desconfiado, como se procurasse algo ou alguém... Largou a mala em cima do tapete enrolado e apressou-se a fechar a porta. Com os pés tentou endireitar o tapete e a mala caiu-lhe em cima dos sapatos brilhantes. Fez uma careta e pontapeou a mala que girou sobre si própria. Dirigiu-se ao cadeirão e sentou-se, os cotovelos sobre os joelhos, a cabeça entre as mãos. Havia um certo desespero no seu rosto, havia uma certa inquietude.
Olhei-o com atenção: era um homem elegante, loiro, olhos cor de avelã. Na mão esquerda brilhava uma aliança de ouro.
Muito bem, este desassossego poderá ter a ver com um encontro clandestino, pensei.
A porta abriu-se, de novo, desta vez, devagar.
- Bernardo, já chegaste?, desculpa atrasei-me.
Fiquei estupefacta, mais uma vez as minhas personagens, o meu filme... Encontro de negócios num quarto de hotel? Hummm... Não me parecia!
- Olá Gonçalo, cheguei há pouco.
Levantou a mala  do amigo e encostou-a à sua. Estendeu o tapete e olhou em redor.
- Bonito quarto!
Bernardo olhou e concordou:
- Sim. É muito bonito e parece confortável.
Alto, moreno, cabelo ondulado, ligeiramente despenteado, olhos esverdeados e no dedo da mão esquerda... uma aliança fina.
Cá estão as singulares personagens que vão pernoitar na minha companhia: Gonçalo e Bernardo.
- Está tudo bem contigo?, pareces abatido.
- Não. Estava a pensar... O que faz um tipo bem sucedido profissionalmente, casado com uma mulher maravilhosa aqui?
- Queres desistir? Sempre fomos amigos, continuaremos a nossa vida...
- Se elas descobrem o que se passa connosco?
- Não descobrem. Conhecemo-nos há anos, passamos férias juntos, frequentamos a casa um do outro... Jogamos ténis, vamos ao mesmo ginásio... Almoçamos juntos muitas vezes...
- Sim, tens razão.
- E as nossas mulheres são amigas...
- Não sei... Não sei como aconteceu isto!
- Bernardo, não temos de perceber como acontecem as coisas, acontecem e pronto!
- Aquele passeio à beira-mar, o pôr-do-sol, os raios enfraquecidos, mas quentes ainda...
- Os nossos olhos prenderam-se, estremeci, mas não consegui afastar o meu olhar do teu.
- A corrida, a água a salpicar-nos, as gargalhadas...
- Quando caíste, tropecei, caí sobre ti... e de novo os nossos olhares presos...
- Depois, despedimo-nos confusos.
- Tentei não pensar em ti, afastar-te dos meus pensamentos, enxotar-te para bem longe... Se tu não tivesses telefonado, acho que não daria nunca este passo.
- Telefonei e aqui estamos!
- Estamos!
- Vá lá, põe-te à vontade! Queres tanto como eu, se não quisesses não tinhas vindo!
Aproximou-se do amigo que continuava sentado, pôs-lhe uma mão no ombro, tentando acalmá-lo.
- Que se passa connosco? Sempre achei repugnante e...
- Palavras para quê? Eu também pensava como tu, até me sentir atraído...
Gonçalo passou a mão pelo cabelo do amigo, fê-lo levantar-se, abraçou-o e passou suavemente as mãos pelo corpo musculado.
Começaram a denudar-se, beijando-se e acariciando-se. A roupa ia ficando espalhada pelo chão, num rasto até à cama.
Estremeci, o que estou prestes a presenciar nunca me passou pela cabeça! Serei uma almofada pudica, conservadora, retrógrada, preconceituosa?
Bernardo deitou-se sobre a colcha lavrada e Gonçalo ficou de lado a admirá-lo e a acariciar-lhe os braços musculados, o peito, o ventre... Bernardo estava tenso ainda, mas quando Gonçalo lhe agarrou o mastro hirto e grosso, deixou-se levar... Acariciou o corpo moreno do amigo e depressa lhe começou também a afagar o membro escuro e brilhante.
Gonçalo  soergueu-se, deslizou sobre o corpo do companheiro e começou a lamber-lhe a barriga, o umbigo, a haste erecta e firme, as bolas, ao mesmo tempo que se masturbava.
Bernardo contorcia-se de prazer. Puxou o amigo e agarrou-lhe o pau com força, esfregando-o violentamente, olhando-o nos olhos.
- Ai a tua expressão! Que loucura! Que gozo me está a dar olhar a tua cara... as tuas pupilas estão dilatadas...
Num ápice, virou o amante, separou-lhe as nádegas e lambeu-lhe o buraco negro e penugento, cuspiu, introduziu-lhe um dedo, volteou, rodou, tornou a voltear... e enfiou-lhe um segundo dedo... Voltou de novo o amigo para si e abocanhou-lhe o varão, chupando-lho com força.
- Ohohohohoh..., vou-me esporrar todo, não aguento mais...
Mas, conteve-se, precisava de dar prazer ao seu deus louro.
Gonçalo começou a acariciar os ombros do companheiro e a lamber-lhe as costas e foi descendo, descendo até lhe chegar ao ânus. Lubrificou-lho com saliva, passou-lhe a língua várias vezes, o dedo e, por fim, penetrou-o bruscamente. E num vaivém enlouquecido, emitia sons roucos completamente imperceptíveis, enquanto o amante friccionava o mastro enorme e duro...
- Dava tudo para te olhar, para ver o teu rosto.
- Deixa-te de conversas e dá-me com toda a força, que estou quase a vir-me. Isso, isso...
- É agora que te vou dar o meu leitinho todo...
E acabaram por se satisfazerem em simultâneo entre gemidos roucos.
Largaram-se, olharam-se.
Gonçalo exclamou:
- Acabaram-se os tabus, começou aqui uma nova etapa, este é o maior segredo da nossa vida...
  


domingo, 6 de outubro de 2013

O primeiro de muito dias de amor





Ela continuava a brincar com os seus lábios nos dele: bailavam, esvoaçavam, roçavam, rasavam, ave leve de asas com penas de veludo que voluteava sensual sobre a boca dele, ávida e sôfrega, que se abria à espera do toque aveludado que passava ligeiro a roçagar...
- Os teus beijos, os teus lábios... o toque... a pele... Que loucura... tão bom... E o teu perfume, o teu cheiro...
Subiu uma perna e enlaçou-a na dele, prendendo-o. Ele segurou-lha, acariciou-lha.
- Deixa-me olhar-te nos olhos. Isto será só desejo?, atracção? Eu quero que seja mais... Quero-te, desejo-te... Quero entrar todo em ti...
- Queres?
- Não quero mais nada, só te quero a ti.
Ela estacou. A respiração de ambos galopava. Ele sentia o ar quente no pescoço, junto à orelha. O coração dela batia desenfreado contra o peito dele.
- Querida, tu és tão querida!
Olhou-a nos olhos e ficaram a olhar-se, extasiados. O tempo parecia ter parado, estava tudo parado, só os olhos falavam, pestanejavam, sorriam...
Puxou-lhe o fecho do vestido e com um dedo fez-lho descair dos ombros. O vestido tombou-lhe aos pés. Afastou-se e fê-la sair de dentro do vestido.
- Quero ver-te!
Distanciou-se, sentou-se no canapé, observando-a. Ela corou e a cor quente, o fogo ardente, que lhe subiu às faces, logo desceu por ela abaixo, estacando entre as pernas.
- Tu não fazes ideia de como és linda, perfeita! Despe o resto da roupa, quero ver-te!
E o fogo subiu de novo a toda a velocidade por ela acima.
- Ficas linda, assim, corada!
Deixou cair uma alça do soutien, depois a outra. Os olhos mantinham-se presos nos dele.
- Tira-o – disse, roucamente.
Foi com as mãos às costas e desapertou o soutien rendado que caiu entre eles. Ele agarrou-o e aspirou fortemente aquele perfume estonteante. Os seus olhos percorriam-lhe o corpo, o rosto, os cabelos, os pequenos montículos redondos e firmes, mais claros do que o resto do corpo bronzeado.
- Continua – pediu.
Ela curvou-se um pouco e fez deslizar as cuecas pelas suas pernas, bamboleando as ancas. Esticou-lhe uma mão, ela agarrou-lha e ele puxou-a fazendo-a sair do meio das cuequinhas minúsculas. Os seus olhos caíram de supetão naquele pequeno triângulo escuro.
- Não és loura? – perguntou.
- Sou – respondeu, vermelhecendo.
Ele apontou a pequena floresta sombria, mais escura do que o ouro do cabelo dela.
- Ah, os pêlos púbicos são sempre mais escuros do que o cabelo – explicou.
Ficou a olhar para ela, de alto a baixo.
- Tens um corpo magnífico, parece que foi cinzelado por um qualquer escultor do Renascimento, és uma Vénus, és mais perfeita do que a Vénus de Botticelli. Há inúmeros retratos e esculturas de Vénus, nenhum te chega aos pés.
- Louco.
Levantou-se, enlaçou-a pela cintura, beijou-a e empurrou-a para a cama. Deitou-se, vestido ainda, sobre ela e meteu o nariz no cabelo dela, aspirando-lhe o perfume, beijou-lhe a orelha, o pescoço, o queixo e deteve-se nos lábios macios, possuiu-lhe a boca com a sua, com a língua, entrando e saindo, ora devagar... devagarinho... ora depressa e com força. Ela sentia o peso do seu corpo contra o dela, sentia a pressão que ele fazia sobre ela, sentia o membro crescente, aprisionado nas calças de ganga, que ele pressionava fortemente contra ela. Correu  uma mão pelo corpo dela, enfiou-lhe um dedo na gruta humente e quente, abriu o fecho das calças, deixando sair o bicho que pulsava descontrolado e enfiou-o, de uma vez, dentro dela.
- Aiiiiiiii
- Estás tão quente, querida!
Ela gemeu, agarrou-lhe as presilhas das calças e puxou-o para si, queria-o todo dentro dela.
- Isso, puxa-me todo para dentro de ti.
E entre ais e gemidos, beijos e carícias, dançaram a dança do amor.
- Abre os olhos, quero ver os teus olhos quando te vieres, vem-te para mim.
Ela suspirou, abriu os olhos e aprisionou-os aos dele.
- Tu és tão linda e, neste momento, és toda minha. Sinto-te toda. É tão bom, quando estremeces entre os meus braços. 
Sorriu-lhe e, de repente, algo se soltou de dentro dela... Não, toda ela se libertou.
- Vem-te, querida!
- Aiiiiiii
Ele colou a boca à dela, abafando-lhe o grito.
- Ó querida, ó meu amor, eu senti-te toda, levei-te à lua – dizia, beijando-lhe as faces coradas, os olhos, o nariz, a testa. – Foi tão bom sentir-te.
Ela apertava-o ainda contra o seu corpo trémulo. Ele resvalou para o lado, saindo de dentro dela, continuando a beijá-la, a soprar-lhe para o rosto e para o peito. Agarrou-a e apertou-a contra si:
- És a minha menina! Adoro-te.
Ela beijou-o docemente uma e outra vez, tirou-lhe a t-shirt pela cabeça, desapertou-lhe o botão das calças, baixou-lhas e foi-lhas empurrando com os pés para baixo... ele contorcia-se ligeiramente para lhe facilitar a tarefa. Depois, nus, apertaram-se num abraço forte. A erecção dele mantinha-se contra o baixo-ventre dela.
- Ai a tua pele na minha!
Segredou-lhe um amo-te ao ouvido e um quero mais. Fê-la descair para o lado, agarrou-lhe as mãos, olhou-a nos olhos, deu um jeito ao corpo e penetrou-a de novo, sem despregar os olhos dos dela.
- Tu deixas-me louco, estás tão quente, é tão bom estar dentro de ti, quero morrer assim.
- Tonto.
E foram devagarinho, num vaivém cadenciado, saboreado, gemido, que ia ganhando e perdendo ritmo...
- Não, não feches os olhos! Ficam ainda mais bonitos os teus olhos, ficas linda a fazer amor.
- Deixa-me fechar os olhos.
- Não.
- Por favor!
- Não. Olha para mim.
- Larga-me as mãos, quero abraçar-te.
- Não. Não podes fazer nada. Pára. Não te mexas.
- Não consigo parar.
- Pára. Se não parares, páro eu e saio de dentro de ti. Sente só. Sente-me a entrar e a sair devagar, depressa, devagar, depressa... Não te mexas, não feches os olhos! Olha para mim! Só te podes mexer, quando to pedir.
Ela mordia o lábio, passava a língua pelos lábios, ofegava.
- Não mordas o lábio, pára quieta.
- Não consigo, estás a torturar-me.
- E não te venhas... Ainda não. Só quando te disser.
Ela torceu-se, respirou fundo para ver se aquele desejo desenfreado se afastava, enquanto ele investia fortemente e a enchia totalmente...
- Quando eu disser, tu vais vir-te toda... toda... para mim.
- E se não conseguir?
- Tu estás quase a explodir, minha linda, eu sinto-te toda. Estás tão linda, assim, à minha mercê, não, não te mexas, fica quieta.
Içou-se um pouco, abriu os braços e os dela, sempre com as mãos dela nas suas, beijou-lhe os lábios e, desenfreadamente, como se cavalgasse para a meta, entrou e saiu de dentro dela com toda a força.
- Agora, vem-te agora – disse-lhe ao ouvido.
E o rio, aprisionado na barragem, soltou-se, largou numa corrida veloz até ao mar. O vulcão entrou em erupção, espalhando a lava retida há muito na caverna escura e foi um ribombar, um latejar forte à volta do membro entumecido e agitado...
Olhou-a nos olhos, como que em adoração. O rosto sério. Ela sorriu-lhe, mas o sorriso foi-se desfazendo perante a seriedade dele.
- Tu és tão linda, eu não te mereço. Sou um velho ao pé de ti. O que viste em mim? Por que gostas de mim?
Ela olhava-o com os olhos enormes, como se estivesse a ouvir o maior dos disparates.
- Gosto de ti, só isso.
Estava dentro dela ainda e olhava-a, o seu olhar queimava, a boca numa linha apertada.
- Tu não te vieste!
- Não.
- Porquê? Não estava bom?
- Estava muito bom, nunca senti nada igual.
- Então?
- Queria dar-te todo o prazer, sentir-te, enlouquecer-te, ver como fazes amor, estava todo concentrado no teu sentir. Mas... agora... vou à lua contigo. Queres que me venha dentro de ti? Vou esvair-me todo em ti.
- Posso mexer-me?, apertar-te?, beijar-te?, fechar os olhos?
Ele abriu um grande sorriso ensolarado.
- Não podes.
- Oh!
- Deves, faz o que quiseres comigo, sou teu. Hoje, é o primeiro dia de muitos dias de amor. Vou fazer coisas contigo que nunca imaginaste, mas vamos devagarinho, não te quero assustar. Quando não gostares, dizes-me.
Agarrou-lhe o rosto, enterrou os dedos no cabelo fino e beijou-lhe os lábios, não o deixando prosseguir. Remexeu-se suavemente debaixo dele.
- Espera, quando te pedir para parares, pára.
Levantou a sobrancelha, mordeu o lábio, mas que raio...
- Está bem!
E suavemente, beijou-a, desprendendo-lhe o lábio dos dentes, lambeu-lhos, mordiscou-lhos e mexeu-se e remexeu-se contra e dentro do corpo dela. Ela enleou as pernas nas dele, cravou-lhe as unhas nas costas, depois veio descendo as mãos pelo corpo dele, agarrando-lhe com força as nádegas. Gemeram, estremeceram, murmuraram palavras doces, apertaram-se, bailaram enlaçados a dança dos corpos apaixonados e foram subindo, subindo, subindo...
- Vou-me vir – gemeu ela.
- Pára, pára agora!
Ela suspendeu aquele ritmo desvairado e sentiu as comportas abrirem-se completamente e a lava saltar, escorrer solta dentro dela, inundando-a, quente, espessa...
- Ó querida, ó meu amor... Vim-me tanto...
E apertava-a nos braços com força, contorcendo-se e estremecendo de prazer...
- Ó querido!
Ficaram abraçados, ofegantes...
- Vou ficar para sempre dentro de ti!
- Vais?
- Se tu quiseres!
Olharam-se apaixonadamente... felizes...

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

O BEIJO




Acorda, acorda...
Ela abriu os olhos, sorriu esperançosa e virou-se para a porta para a abrir, mas os passos afastaram-se. Oh, não é ele!
O telemóvel tiniu. Foi ver. Uma mensagem: Estou preso no trânsito, houve um acidente qualquer. Não tenho a culpa. Já deves estar à minha espera. Por favor, não te vás embora. Respondeu-lhe: É melhor ir-me embora! Novo retinir. Não vás, espera, sonho com este encontro desde o miradouro. Não vás. Espera por mim, querida!
Pousou o iphone junto da mala e deu mais uma volta pelo quarto. Olhou-se ao espelho. Sorriu. Passou os dedos pelo cabelo. Piscou o olho. Sentou-se na cama e pegou em mim. Afagou-me, apertou-me contra o peito. Ouvi o bater do seu coração. As suas mãos eram delicadas e esguias, os dedos finos, as unhas perfeitas, longas, ovais, muito bem pintadas num tom de rosa suave e brilhante.
Ela sorriu-me como se se estivesse a lembrar de algo:

Vamos. Ele pegou-lhe na mão e seguiram para a estação do Metro. Agora, o terreno era direito, desenhado a preto e branco. Queres lanchar? Não, obrigada. Não tenho fome. Posso oferecer-te um bolinho, ao menos? Não. Estou bem. Um sumo? Sorriu. Não quero nada, obrigada. Pois eu quero! Queres? Sim. Quero-te a ti. Franziu a testa. Queres-me a mim? Sorriu divertido com a expressão dela. Gostaria que fosses minha, mas... ninguém é de ninguém! O olhar dele ensombrou-se. Pois não! Ele estacou, virou-se para ela e olhou-a nos olhos. Ela baixou o olhar e ele com um dedo levantou-lhe o queixo até ficarem de olhos nos olhos novamente. Sorriram. Ele beijou-lhe o cabelo e a testa e, por fim, roçou os lábios húmidos nos dela. Ela entreabriu a boca e mordeu o lábio inferior e lambeu primeiro o lábio superior, depois o inferior. Não faças isso! Fico com uma vontade de te beijar com força, de te morder o lábio, de te lamber... Calou-se, por momentos, observando a cara de espanto dela, a sobrancelha levantada, o sorrisinho meio tímido. A tua boca é tão suave, os teus lábios são únicos, são uma tentação! Posso ficar viciado em ti sabias? 
Abanou a cabeça para fazer dispersar aqueles pensamentos...
Vamos. Sim, tenho de ir. Detesto conduzir à noite. Fica comigo. Olhou-o de olhos esbugalhados. Ficar com ele? Está louco. Não é de bom-tom, logo no primeiro encontro, levar a namorada para casa, pois não? Acho que não. Pois, então tem de ficar para um próximo encontro. Tem. Enfiaram-se no Metro. Hora de ponta. As carruagens apinhadas. Ela encostou-se contra as costas dos assentos, ele ficou de frente para ela, agarrando-se com uma mão ao ferro que passava por cima das costas dos bancos. Com a outra brincava com os cabelos dela, afastando-lhe a franja que teimava em cair-lhe para os olhos, passando-lhe o dedo indicador pelo nariz, fazendo-o descer pelos lábios. Ela sorria e com um dedo, afastava-o, cada vez que o empurravam e ele a espalmava contra as costas dos assentos. Ele fazia um trejeito como que a dizer que não tinha culpa. Ela revirava-lhe os olhos. Saio na próxima paragem. Eu continuo. Despediram-se com um beijo cândido e superficial. Quando chegares envia-me uma mensagem. Ela saiu da carruagem e seguiu sem olhar para trás. Ele viu-a desaparecer na escadaria.
Meteu-se no carro, programou o GPS, ligou o rádio e pôs-se a caminho, tinha cerca de cem quilómetros para percorrer. O telemóvel soou. Adorei passear contigo. Tu és linda. Adorei-te toda. Parece que vivi um sonho. Ela sorriu. Nova mensagem: Diz-me que também gostaste um pouco de mim. Ia completamente absorta, enleada em mil pensamentos... o telefone voltou a ecoar. Nunca mais me vou esquecer do beijo que me deste. E de novo: Adorei o teu beijo. Tão saboroso. Ui, nem me posso lembrar! O sangue disparou a correr-me loucamente pelas veias e... Tu sentiste, tu viste como é que eu fiquei. Meu Deus, não vou olhar mais para o iphone, ainda me estampo. Atirou-o para dentro da mala, mas ouviu-o retinir mais umas quantas vezes.
Entrou na garagem. Pegou no telefone, leu as restantes mensagens e respondeu: Já cheguei, adorei o passeio, adorei que me tivesses amparado, abusaste um bocadinho da sorte, mas eu até gostei. Gostei de te beijar. Ainda bem que encontraste finalmente o BEIJO e que  esse BEIJO é o meu. Vou jantar. Beijinhos. Ainda não tinha largado o telemóvel, quando recebeu a resposta: Bom jantar. Adorei tudo em ti. Dorme bem. Beijinhos. ADORO-TE.

Colocou-me na cama delicadamente, endireitando-me os folhos. Levantou-se, pegou na mala e dirigiu-se à porta. Abriu-a e ali estava ele à sua frente. Acabara de chegar. Ofegava. Tinha corrido a bem correr, receava que ela não esperasse.
- Ias-te embora, mas cheguei a horas de te impedir.
Ela sorriu e recuou. Ele avançou para ela, empurrou a porta e agarrou-a, procurando-lhe a boca avidamente.
- O que eu sonhei com este momento, só queria ter-te de novo nos meus braços, só me lembrava da tua boca colada à minha, da tua língua marota... A mala caiu-lhe aos pés e ela agarrou-lhe os ombros, puxou-o para ela. Enfiou-lhe as mãos nos cabelos. Ele afastou-a para a olhar nos olhos:
- Tens uns olhos tão bonitos, tão grandes.
- São para te ver melhor.
- Tens uma boca linda, saborosa, fresca e quente, os teus lábios, ai os teus lábios... E a tua língua...
Chegou-se a ele, passou-lhe os braços à volta do pescoço e passou-lhe a língua pela boca, desenhando-lha. Lambeu-lhe os lábios, primeiro o inferior, depois o superior... os dois: de baixo para cima, de cima para baixo. Enfiou-lhe a língua na boca entreaberta, tirou-a, enfiou-a... devagar, depressa... Ele tentou prender-lha. 
- Não, não, nem penses! 
Mordiscou-lhe o lábio inferior, chupou-lho, lambeu-lho. Passou para o superior, brincou com a língua no canto esquerdo, no canto direito... Ele, ávido, tentava abocanhar-lhe a boca, a língua, mas ela fugia-lhe, escapava-lhe e continuava a brincar com a boca dela na dele, com a língua, com os dentes.
- Estás a pôr-me doido!
- Pois estou! Não gostas?
- Adoro!
E a brincadeira continuava. Ela fingia que se ia deixar prender pela boca dele e, de repente, esquivava-se, só lhe dando a pontinha da língua, uns beijinhos fugazes, umas lambedelas esquivas, umas mordidinhas fugidias.
- Tu gostas mesmo de brincar!
- Gosto de te beijar. Assim... Humedecia os lábios, encostava-os muito levemente aos dele, pressionava um bocadinho... Gosto de te beijar. Assim... Devagar, com tempo, sem pressa... Devagar, muito devagarinho! Gosto de te saborear, de comer os teus lábios, de os trincar...
Ia falando, com a boca colada na dele, naquele jogo de toca e foge...
- Estou a ficar...
- Estás a ficar?
- Ai, o que tu me fazes, como fico...
Empurrou-a docemente até à cama, meteu-lhe as mãos por baixo do vestido, passou-lhe a mão pelas coxas, a subir, a subir, enfiou-a por dentro das cuecas, enterrou um dedo dentro dela...
- Como tu estás também!
- Como estou? – perguntava boca na boca. Os lábios de ambos húmidos, inchados, sôfregos, insaciáveis...
- Pronta, pronta para mim...
- Ah, sim?...

domingo, 8 de setembro de 2013

Memórias




Acordei sobressaltada. Alguém entrara, enquanto estava adormecida e enleada nos braços do meu querido travesseiro. Respirei fundo. Havia um perfume delicioso no quarto. Eu lembrava-me vagamente daquele aroma cálido, deleitoso... Abri os olhos de espanto. Ela já tinha estado ali! Tenho a certeza! Era ela! Voltara. E agora passeava-se pelo quarto, com um sorriso nos lábios bem delineados e rosados, sem saber muito bem o que fazer. Parecia meio perdida: sentou-se na cama, olhou-me, mas levantou-se de repente; olhou para o canapé, em frente, fez o gesto de quem se ia sentar, mas desistiu; entrou na casa de banho, olhou em volta e saiu; abriu as portadas que dão para a espaçosa varanda, debruçou-se, aspirou o perfume campestre, passou uma mão pela franja que o vento despenteara e regressou ao quarto, deixando as portas da varanda abertas de par em par. 
- Se ele demorar muito, desisto e saio daqui a correr! 

Encostou-se à porta por onde ele haveria de entrar... Cerrou os olhos. Parecia distante, vagueava. Lembrou-se da primeira vez que ouviu a voz dele, não queria acreditar: quem disse que a voz não é importante, que não nos podemos apaixonar por uma voz? 
Depois de muitas vezes ter apagado o número de telefone dele e de resistir e resistir e resistir àquele chamamento, uma noite, saiu de casa, foi para o jardim, levou uma manta, fazia frio, o Outono caminhava a passos largos... Enroscou-se num banco, embrulhou-se e ligou-lhe. Olá, disse ele, estava a ver que nunca mais te decidias a ligar. Ficou muda. Estou, continuava ele, estou, desligaste? Não, não, estou aqui a ouvir-te e a olhar para as estrelas. A olhar para as estrelas, isso é bonito, estás na rua? Estou recostada e enrolada numa manta a ouvir a mais bela voz do mundo e dos arredores! Ouviu uma gargalhada doce do outro lado. Olha, também tens uma voz deliciosa, muito sensual, linda. Tinha receio de não gostar da tua voz, sabes? Desta vez, foi ela quem riu. E gosto do teu riso. E falaram, falaram, riram, riram e o telemóvel desligou e ele ligou-lhe de novo: Estamos a falar há uma hora, estás bem, não tens frio? Não, não tenho, a tua voz aquece-me. Aquece? Isso é bom. A tua também me aquece. Gosto de ti, da tua figura, do teu rosto, és muito bonita, tens uns olhos lindos, a tua boca é perfeita, dá vontade de beijar, o teu cabelo... Espera, nunca me viste, só viste fotos... Aposto que pessoalmente ainda és mais deslumbrante... Não digas disparates, quando me vires, foges a sete pés... Tu é que foges! Adoro a tua voz, acho que condiz contigo! Adorava ouvi-la pertinho do meu ouvido. Ela riu. Estás a ouvir-me ao ouvido! Pois estou, mas queria sentir os teus lábios ao pé da minha orelha, sentir a tua respiração, o teu hálito quentinho a fazer-me estremecer... Pois, mas é tarde! E o telefone calou-se de novo e ele voltou a ligar. Estão a mandar-nos ir para a cama, estão a dizer-nos que já falámos de mais. Boa noite, dorme bem, adorei ouvir-te, és uma deusa. Desliga. Não, desliga tu. Desliga antes tu...
Pegou na manta e encaminhou-se para casa com um sorriso do tamanho da lua que brilhava lá no alto, acompanhada por milhares de estrelas que tremeluziam satisfeitas.
Ainda deu uma vista de olhos na sua página e ele apareceu. Olha, vim olhar mais uma vez para ti, estou completamente apaixonado, já estava, mas agora que te ouvi, sucumbi completamente. És linda, simpática, tens uma voz e um riso lindos... Que mais irei descobrir? Que tonto, vais apanhar uma grande desilusão! Eu não vou, mas tu sim! Pronto, vou deitar-me, vim só dizer-te boa noite! Espera, só falta encontrarmo-nos. Pois falta! Um dia. Não digas isso, isso é o mesmo que NUNCA!
Lol... escreveu ela e desligou o computador.

Depois falaram mais umas tantas vezes. Tinham, realmente muito em comum. Somos gémeos, nascidos de placentas diferentes e com alguma diferença de tempo, dizia ele, cada vez que descobriam alguma semelhança... Por vezes, diziam ou escreviam o mesmo simultaneamente. EM SINTONIA, dizia ela. BINGO, escrevia ele.

Achei graça às memórias de lhe vinham à mente, parecia uma corrente que se desenrolava, parecia que as suas lembranças  escorregavam, tropeçavam, que as palavras ditas por um e por outro se entrelaçavam por ordem, como numa teia. Era só a sua cabeça cheia de pensamentos que se iam desenrodilhando, desenrolando como a lã de novelos com cores diferentes e que iam constituindo uma trama colorida... 
   
Quando nos vemos, quando nos encontramos?, perguntou ele de rompante num dos telefonemas à noite, na rua, sob as estrelas. Tens a certeza que queres ver-me? Claro e tocar-te para ver se existes mesmo ou se és produto da minha imaginação. Marcaram um encontro.

Chegou o dia do encontro. Ia tranquila pela estrada a ouvir música. Estacionou o carro. Agora, tinha de apanhar o metro, ele estaria à sua espera. Como nos vamos reconhecer? Tenho a certeza que mesmo que estejas entre milhares de mulheres te encontrarei, te reconhecerei. Há uma avaria no metro, tenho medo de chegar depois de ti e não queria, queria estar à tua espera, mas não tenho culpa, dizia a mensagem. Raios, se chegar antes dele, faço o quê? Espero? Oh, não era assim que tínhamos imaginado. Já vou a caminho. Afinal, acho que vou chegar primeiro do que tu, princesa. Uf, ainda bem! Cheguei! Estou na esplanada à tua espera, de pé, para me veres logo! E eu vou sair do metro agora...
Subiu a escadaria e lá estava ele, de óculos escuros. Quando a viu surgir, avançou para ela a sorrir: Olá. Olá! Reconheceste-me. Reconhecer-te-ia até debaixo de água. Deu-lhe um beijo na face, ela retribuiu. Estendeu-lhe a mão e de mãos dadas seguiram. Vamos ao castelo, quero ir ao miradouro contigo. O caminho é capaz de não ser muito aconselhável para as minhas sandálias. Apoias-te em mim, eu agarro-te, até te levo ao colo se for preciso, dizia sorrindo. E iam subindo, as pedras eram irregulares, cheias de altos e baixos. Ela segurava-lhe a mão com força e ele, de vez em quando, enlaçava-a pela cintura. Foi uma subida cheia de sensualidade, ele não perdia a oportunidade de lhe meter a mão por baixo da blusa, tocando-lhe a pele, afagava-lhe os dedos, apertava-lhe as mãos, beijava-lhe os cabelos e aspirava o perfume que deles se soltava... Chegados ao miradouro, apontou o rio. A paisagem era soberba, o rio corria veloz para o mar, o sol brilhava, as flores coloriam e perfumavam o espaço. De repente, ficaram frente a frente, olhos nos olhos. Os teus olhos são o meu mar! Pôs-lhe as mãos nos ombros, puxou a blusa pela milésima vez para cima do ombro. Esta blusa é muito marota! Abraçou-a e beijaram-se. Ela metera-lhe os dedos pelo cabelo, a blusa subiu e ele agarrou-lhe a cintura nua. O rio, o mar, as flores, as árvores, o casario e os turistas testemunharam aquele beijo ardente. Gosto do teu cheiro, do teu sabor, dos teus lábios, da tua boca, da tua pele de veludo... Deram uma volta, sentaram-se nos bancos de pedra a olhar para o rio e o mar.
Vamos. A subida tinha sido penosa, mas a descida vislumbrava-se muito pior: saltos altos, descidas quase a pique. Vai ser delicioso agarrar-te, ter-te nos braços para não te deixar cair... Que tortura! Meus ricos pezinhos! 
Pararam numas escavações e enquanto ela olhava curiosa, ele beijou-lhe o ombro que mais uma vez se mostrava descoberto. Ela virou a cara para ele e ele levantou os olhos e roçou os lábios nos dela. Sorriram. Vamos. Deu-lhe a mão e continuaram a descer. Malditas sandálias! Abençoadas sandálias! Pararam a meio do caminho. Havia umas árvores com uns bancos por baixo, sentaram-se à sombra. Ele puxou-a para si, fê-la encostar a cabeça ao seu ombro e mais uma vez depositou um beijo inocente no dourado dos seus cabelos. Pegou-lhe na mão e levou-a aos lábios. Beijou-lhe a palma da mão, os dedos, um por um, olhando-a nos olhos. Conversaram um bocado. Parecia que se conheciam de toda a vida, desde sempre...
Eu gostei logo de ti, quando me deparei com a primeira fotografia! Depois vi outras e pensei, adorava ter esta mulher nos braços, adorava beijar esta boca, tocar estes cabelos, olhar profundamente estes olhos... Depois dizia: sonha, sonha, deves, deves... E agora tenho-te aqui e já te beijei e abracei, sem querer claro!, foi para não caíres... Riu e ela sorria e franzia o sobrolho.
Vamos. Entretanto tenho de te deixar. Que pena! Ficava contigo o resto da vida! Ah, ficavas, isso querias tu! Pois queria, tu és tudo o que um homem pode sonhar! Não me conheces! Claro que conheço, há quanto tempo teclamos? Desceram de mãos dadas. Pararam junto a uma porta de uma igreja ou de um monumento, não se lembrava bem. Começou a ler a inscrição em latim e ele desceu o degrau, ficando quase ao mesmo nível dela. Que sou eu para ti? Ela olhou-o nos olhos sem perceber muito bem a pergunta e sem saber o que responder. Não dizes nada? Não queria dizer nada, que poderia dizer. Ele olhava-a interrogativamente, à espera. Ela puxou-o para si e beijou-o com força, lambendo-lhe os lábios, mordendo-os, chupando-os... Por fim, enfiou-lhe a língua na boca e entrelaçou-a na dele, passou-lha pelos dentes, pelos lábios... Eh lá, pensava que ele estava adormecido, mas está a soltar-se, a crescer... Ressuscitou. Ela sorriu contra a boca dele e sentia a erecção dele contra o seu corpo...

Passos, oiço passos, é ele e ela encostada à porta de olhos fechados... Acorda!