domingo, 8 de setembro de 2013

Memórias




Acordei sobressaltada. Alguém entrara, enquanto estava adormecida e enleada nos braços do meu querido travesseiro. Respirei fundo. Havia um perfume delicioso no quarto. Eu lembrava-me vagamente daquele aroma cálido, deleitoso... Abri os olhos de espanto. Ela já tinha estado ali! Tenho a certeza! Era ela! Voltara. E agora passeava-se pelo quarto, com um sorriso nos lábios bem delineados e rosados, sem saber muito bem o que fazer. Parecia meio perdida: sentou-se na cama, olhou-me, mas levantou-se de repente; olhou para o canapé, em frente, fez o gesto de quem se ia sentar, mas desistiu; entrou na casa de banho, olhou em volta e saiu; abriu as portadas que dão para a espaçosa varanda, debruçou-se, aspirou o perfume campestre, passou uma mão pela franja que o vento despenteara e regressou ao quarto, deixando as portas da varanda abertas de par em par. 
- Se ele demorar muito, desisto e saio daqui a correr! 

Encostou-se à porta por onde ele haveria de entrar... Cerrou os olhos. Parecia distante, vagueava. Lembrou-se da primeira vez que ouviu a voz dele, não queria acreditar: quem disse que a voz não é importante, que não nos podemos apaixonar por uma voz? 
Depois de muitas vezes ter apagado o número de telefone dele e de resistir e resistir e resistir àquele chamamento, uma noite, saiu de casa, foi para o jardim, levou uma manta, fazia frio, o Outono caminhava a passos largos... Enroscou-se num banco, embrulhou-se e ligou-lhe. Olá, disse ele, estava a ver que nunca mais te decidias a ligar. Ficou muda. Estou, continuava ele, estou, desligaste? Não, não, estou aqui a ouvir-te e a olhar para as estrelas. A olhar para as estrelas, isso é bonito, estás na rua? Estou recostada e enrolada numa manta a ouvir a mais bela voz do mundo e dos arredores! Ouviu uma gargalhada doce do outro lado. Olha, também tens uma voz deliciosa, muito sensual, linda. Tinha receio de não gostar da tua voz, sabes? Desta vez, foi ela quem riu. E gosto do teu riso. E falaram, falaram, riram, riram e o telemóvel desligou e ele ligou-lhe de novo: Estamos a falar há uma hora, estás bem, não tens frio? Não, não tenho, a tua voz aquece-me. Aquece? Isso é bom. A tua também me aquece. Gosto de ti, da tua figura, do teu rosto, és muito bonita, tens uns olhos lindos, a tua boca é perfeita, dá vontade de beijar, o teu cabelo... Espera, nunca me viste, só viste fotos... Aposto que pessoalmente ainda és mais deslumbrante... Não digas disparates, quando me vires, foges a sete pés... Tu é que foges! Adoro a tua voz, acho que condiz contigo! Adorava ouvi-la pertinho do meu ouvido. Ela riu. Estás a ouvir-me ao ouvido! Pois estou, mas queria sentir os teus lábios ao pé da minha orelha, sentir a tua respiração, o teu hálito quentinho a fazer-me estremecer... Pois, mas é tarde! E o telefone calou-se de novo e ele voltou a ligar. Estão a mandar-nos ir para a cama, estão a dizer-nos que já falámos de mais. Boa noite, dorme bem, adorei ouvir-te, és uma deusa. Desliga. Não, desliga tu. Desliga antes tu...
Pegou na manta e encaminhou-se para casa com um sorriso do tamanho da lua que brilhava lá no alto, acompanhada por milhares de estrelas que tremeluziam satisfeitas.
Ainda deu uma vista de olhos na sua página e ele apareceu. Olha, vim olhar mais uma vez para ti, estou completamente apaixonado, já estava, mas agora que te ouvi, sucumbi completamente. És linda, simpática, tens uma voz e um riso lindos... Que mais irei descobrir? Que tonto, vais apanhar uma grande desilusão! Eu não vou, mas tu sim! Pronto, vou deitar-me, vim só dizer-te boa noite! Espera, só falta encontrarmo-nos. Pois falta! Um dia. Não digas isso, isso é o mesmo que NUNCA!
Lol... escreveu ela e desligou o computador.

Depois falaram mais umas tantas vezes. Tinham, realmente muito em comum. Somos gémeos, nascidos de placentas diferentes e com alguma diferença de tempo, dizia ele, cada vez que descobriam alguma semelhança... Por vezes, diziam ou escreviam o mesmo simultaneamente. EM SINTONIA, dizia ela. BINGO, escrevia ele.

Achei graça às memórias de lhe vinham à mente, parecia uma corrente que se desenrolava, parecia que as suas lembranças  escorregavam, tropeçavam, que as palavras ditas por um e por outro se entrelaçavam por ordem, como numa teia. Era só a sua cabeça cheia de pensamentos que se iam desenrodilhando, desenrolando como a lã de novelos com cores diferentes e que iam constituindo uma trama colorida... 
   
Quando nos vemos, quando nos encontramos?, perguntou ele de rompante num dos telefonemas à noite, na rua, sob as estrelas. Tens a certeza que queres ver-me? Claro e tocar-te para ver se existes mesmo ou se és produto da minha imaginação. Marcaram um encontro.

Chegou o dia do encontro. Ia tranquila pela estrada a ouvir música. Estacionou o carro. Agora, tinha de apanhar o metro, ele estaria à sua espera. Como nos vamos reconhecer? Tenho a certeza que mesmo que estejas entre milhares de mulheres te encontrarei, te reconhecerei. Há uma avaria no metro, tenho medo de chegar depois de ti e não queria, queria estar à tua espera, mas não tenho culpa, dizia a mensagem. Raios, se chegar antes dele, faço o quê? Espero? Oh, não era assim que tínhamos imaginado. Já vou a caminho. Afinal, acho que vou chegar primeiro do que tu, princesa. Uf, ainda bem! Cheguei! Estou na esplanada à tua espera, de pé, para me veres logo! E eu vou sair do metro agora...
Subiu a escadaria e lá estava ele, de óculos escuros. Quando a viu surgir, avançou para ela a sorrir: Olá. Olá! Reconheceste-me. Reconhecer-te-ia até debaixo de água. Deu-lhe um beijo na face, ela retribuiu. Estendeu-lhe a mão e de mãos dadas seguiram. Vamos ao castelo, quero ir ao miradouro contigo. O caminho é capaz de não ser muito aconselhável para as minhas sandálias. Apoias-te em mim, eu agarro-te, até te levo ao colo se for preciso, dizia sorrindo. E iam subindo, as pedras eram irregulares, cheias de altos e baixos. Ela segurava-lhe a mão com força e ele, de vez em quando, enlaçava-a pela cintura. Foi uma subida cheia de sensualidade, ele não perdia a oportunidade de lhe meter a mão por baixo da blusa, tocando-lhe a pele, afagava-lhe os dedos, apertava-lhe as mãos, beijava-lhe os cabelos e aspirava o perfume que deles se soltava... Chegados ao miradouro, apontou o rio. A paisagem era soberba, o rio corria veloz para o mar, o sol brilhava, as flores coloriam e perfumavam o espaço. De repente, ficaram frente a frente, olhos nos olhos. Os teus olhos são o meu mar! Pôs-lhe as mãos nos ombros, puxou a blusa pela milésima vez para cima do ombro. Esta blusa é muito marota! Abraçou-a e beijaram-se. Ela metera-lhe os dedos pelo cabelo, a blusa subiu e ele agarrou-lhe a cintura nua. O rio, o mar, as flores, as árvores, o casario e os turistas testemunharam aquele beijo ardente. Gosto do teu cheiro, do teu sabor, dos teus lábios, da tua boca, da tua pele de veludo... Deram uma volta, sentaram-se nos bancos de pedra a olhar para o rio e o mar.
Vamos. A subida tinha sido penosa, mas a descida vislumbrava-se muito pior: saltos altos, descidas quase a pique. Vai ser delicioso agarrar-te, ter-te nos braços para não te deixar cair... Que tortura! Meus ricos pezinhos! 
Pararam numas escavações e enquanto ela olhava curiosa, ele beijou-lhe o ombro que mais uma vez se mostrava descoberto. Ela virou a cara para ele e ele levantou os olhos e roçou os lábios nos dela. Sorriram. Vamos. Deu-lhe a mão e continuaram a descer. Malditas sandálias! Abençoadas sandálias! Pararam a meio do caminho. Havia umas árvores com uns bancos por baixo, sentaram-se à sombra. Ele puxou-a para si, fê-la encostar a cabeça ao seu ombro e mais uma vez depositou um beijo inocente no dourado dos seus cabelos. Pegou-lhe na mão e levou-a aos lábios. Beijou-lhe a palma da mão, os dedos, um por um, olhando-a nos olhos. Conversaram um bocado. Parecia que se conheciam de toda a vida, desde sempre...
Eu gostei logo de ti, quando me deparei com a primeira fotografia! Depois vi outras e pensei, adorava ter esta mulher nos braços, adorava beijar esta boca, tocar estes cabelos, olhar profundamente estes olhos... Depois dizia: sonha, sonha, deves, deves... E agora tenho-te aqui e já te beijei e abracei, sem querer claro!, foi para não caíres... Riu e ela sorria e franzia o sobrolho.
Vamos. Entretanto tenho de te deixar. Que pena! Ficava contigo o resto da vida! Ah, ficavas, isso querias tu! Pois queria, tu és tudo o que um homem pode sonhar! Não me conheces! Claro que conheço, há quanto tempo teclamos? Desceram de mãos dadas. Pararam junto a uma porta de uma igreja ou de um monumento, não se lembrava bem. Começou a ler a inscrição em latim e ele desceu o degrau, ficando quase ao mesmo nível dela. Que sou eu para ti? Ela olhou-o nos olhos sem perceber muito bem a pergunta e sem saber o que responder. Não dizes nada? Não queria dizer nada, que poderia dizer. Ele olhava-a interrogativamente, à espera. Ela puxou-o para si e beijou-o com força, lambendo-lhe os lábios, mordendo-os, chupando-os... Por fim, enfiou-lhe a língua na boca e entrelaçou-a na dele, passou-lha pelos dentes, pelos lábios... Eh lá, pensava que ele estava adormecido, mas está a soltar-se, a crescer... Ressuscitou. Ela sorriu contra a boca dele e sentia a erecção dele contra o seu corpo...

Passos, oiço passos, é ele e ela encostada à porta de olhos fechados... Acorda!

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