Acordei sobressaltada. Alguém
entrara, enquanto estava adormecida e enleada nos braços do meu querido travesseiro. Respirei fundo. Havia um perfume delicioso
no quarto. Eu lembrava-me vagamente daquele aroma cálido, deleitoso... Abri os
olhos de espanto. Ela já tinha estado ali! Tenho a certeza! Era ela! Voltara. E agora passeava-se pelo quarto, com
um sorriso nos lábios bem delineados e rosados, sem saber muito bem o que fazer. Parecia meio perdida: sentou-se na cama, olhou-me, mas levantou-se de repente; olhou para o
canapé, em frente, fez o gesto de quem se ia sentar, mas desistiu; entrou na casa de
banho, olhou em volta e saiu; abriu as portadas que dão para a espaçosa
varanda, debruçou-se, aspirou o perfume campestre, passou uma mão pela franja
que o vento despenteara e regressou ao quarto, deixando as portas da varanda
abertas de par em par.
- Se ele demorar muito, desisto e saio
daqui a correr!
Encostou-se à porta por onde ele haveria de entrar... Cerrou os olhos. Parecia distante, vagueava. Lembrou-se da primeira vez que ouviu a voz dele, não queria
acreditar: quem disse que a voz não é importante, que não nos podemos apaixonar
por uma voz?
Depois de muitas vezes ter apagado o número de telefone dele e de
resistir e resistir e resistir àquele chamamento, uma noite, saiu de casa, foi
para o jardim, levou uma manta, fazia frio, o Outono caminhava a passos
largos... Enroscou-se num banco, embrulhou-se e ligou-lhe. Olá, disse ele,
estava a ver que nunca mais te decidias a ligar. Ficou muda. Estou, continuava
ele, estou, desligaste? Não, não, estou aqui a ouvir-te e a olhar para as estrelas. A
olhar para as estrelas, isso é bonito, estás na rua? Estou recostada e enrolada
numa manta a ouvir a mais bela voz do mundo e dos arredores! Ouviu uma gargalhada
doce do outro lado. Olha, também tens uma voz deliciosa, muito sensual, linda.
Tinha receio de não gostar da tua voz, sabes? Desta vez, foi ela quem riu. E
gosto do teu riso. E falaram, falaram, riram, riram e o telemóvel desligou e
ele ligou-lhe de novo: Estamos a falar há uma hora, estás bem, não tens frio?
Não, não tenho, a tua voz aquece-me. Aquece? Isso é bom. A tua também me
aquece. Gosto de ti, da tua figura, do teu rosto, és muito
bonita, tens uns olhos lindos, a tua boca é perfeita, dá vontade de beijar, o
teu cabelo... Espera, nunca me viste, só viste fotos... Aposto que pessoalmente
ainda és mais deslumbrante... Não digas disparates, quando me vires, foges a
sete pés... Tu é que foges! Adoro a tua voz, acho que condiz contigo! Adorava
ouvi-la pertinho do meu ouvido. Ela riu. Estás a ouvir-me ao ouvido! Pois
estou, mas queria sentir os teus lábios ao pé da minha orelha, sentir a tua
respiração, o teu hálito quentinho a fazer-me estremecer... Pois, mas é tarde!
E o telefone calou-se de novo e ele voltou a ligar. Estão a mandar-nos ir para
a cama, estão a dizer-nos que já falámos de mais. Boa noite, dorme bem, adorei
ouvir-te, és uma deusa. Desliga. Não, desliga tu. Desliga antes tu...
Pegou na manta e encaminhou-se para
casa com um sorriso do tamanho da lua que brilhava lá no alto, acompanhada por
milhares de estrelas que tremeluziam satisfeitas.
Ainda deu uma vista de olhos na sua
página e ele apareceu. Olha, vim olhar mais uma vez para ti, estou
completamente apaixonado, já estava, mas agora que te ouvi, sucumbi
completamente. És linda, simpática, tens uma voz e um riso lindos... Que mais
irei descobrir? Que tonto, vais apanhar uma grande desilusão! Eu não vou, mas
tu sim! Pronto, vou deitar-me, vim só dizer-te boa noite! Espera, só falta
encontrarmo-nos. Pois falta! Um dia. Não digas isso, isso é o mesmo que NUNCA!
Lol... escreveu ela e desligou o
computador.
Depois falaram mais umas tantas
vezes. Tinham, realmente muito em comum. Somos gémeos, nascidos de placentas
diferentes e com alguma diferença de tempo, dizia ele, cada vez que descobriam
alguma semelhança... Por vezes, diziam ou escreviam o mesmo simultaneamente. EM
SINTONIA, dizia ela. BINGO, escrevia ele.
Achei graça às memórias de lhe
vinham à mente, parecia uma corrente que se desenrolava, parecia que as suas lembranças escorregavam, tropeçavam, que as palavras ditas
por um e por outro se entrelaçavam por ordem, como numa teia. Era só a sua
cabeça cheia de pensamentos que se iam desenrodilhando, desenrolando como a lã de novelos com cores diferentes e que iam constituindo uma trama colorida...
Quando nos vemos, quando nos
encontramos?, perguntou ele de rompante num dos telefonemas à noite, na rua, sob
as estrelas. Tens a certeza que queres ver-me? Claro e tocar-te para ver se
existes mesmo ou se és produto da minha imaginação. Marcaram um encontro.
Chegou o dia do encontro. Ia tranquila pela estrada a ouvir música. Estacionou o carro. Agora, tinha de
apanhar o metro, ele estaria à sua espera. Como nos vamos reconhecer? Tenho a
certeza que mesmo que estejas entre milhares de mulheres te encontrarei, te
reconhecerei. Há uma avaria no metro, tenho medo de chegar depois de ti e não
queria, queria estar à tua espera, mas não tenho culpa, dizia a mensagem. Raios, se chegar antes dele, faço o quê? Espero? Oh, não era assim
que tínhamos imaginado. Já vou a caminho. Afinal, acho que vou chegar primeiro do que
tu, princesa. Uf, ainda bem! Cheguei! Estou na esplanada à tua espera, de pé,
para me veres logo! E eu vou sair do metro agora...
Subiu a escadaria e lá estava ele, de óculos
escuros. Quando a viu surgir, avançou para ela a sorrir: Olá. Olá!
Reconheceste-me. Reconhecer-te-ia até debaixo de água. Deu-lhe um beijo na
face, ela retribuiu. Estendeu-lhe a mão e de mãos dadas seguiram. Vamos ao
castelo, quero ir ao miradouro contigo. O caminho é capaz de não ser muito
aconselhável para as minhas sandálias. Apoias-te em mim, eu agarro-te, até te
levo ao colo se for preciso, dizia sorrindo. E iam subindo, as pedras eram
irregulares, cheias de altos e baixos. Ela segurava-lhe a mão com força e ele, de vez em quando, enlaçava-a pela cintura. Foi uma subida cheia de sensualidade, ele não perdia a
oportunidade de lhe meter a mão por baixo da blusa, tocando-lhe a pele,
afagava-lhe os dedos, apertava-lhe as mãos, beijava-lhe os cabelos e aspirava o
perfume que deles se soltava... Chegados ao miradouro, apontou o rio. A
paisagem era soberba, o rio corria veloz para o mar, o sol brilhava, as flores
coloriam e perfumavam o espaço. De repente, ficaram frente a frente, olhos nos
olhos. Os teus olhos são o meu mar! Pôs-lhe as mãos nos ombros, puxou a blusa
pela milésima vez para cima do ombro. Esta blusa é muito marota! Abraçou-a e
beijaram-se. Ela metera-lhe os dedos pelo cabelo, a blusa subiu e ele
agarrou-lhe a cintura nua. O rio, o mar, as flores, as árvores, o casario e os
turistas testemunharam aquele beijo ardente. Gosto do teu cheiro, do teu sabor,
dos teus lábios, da tua boca, da tua pele de veludo... Deram uma volta,
sentaram-se nos bancos de pedra a olhar para o rio e o mar.
Vamos. A subida tinha sido penosa,
mas a descida vislumbrava-se muito pior: saltos altos, descidas quase a pique.
Vai ser delicioso agarrar-te, ter-te nos braços para não te deixar cair... Que
tortura! Meus ricos pezinhos!
Pararam numas escavações e enquanto ela olhava
curiosa, ele beijou-lhe o ombro que mais uma vez se mostrava descoberto. Ela
virou a cara para ele e ele levantou os olhos e roçou os lábios nos dela.
Sorriram. Vamos. Deu-lhe a mão e continuaram a descer. Malditas sandálias!
Abençoadas sandálias! Pararam a meio do caminho. Havia umas árvores com uns
bancos por baixo, sentaram-se à sombra. Ele puxou-a para si, fê-la encostar
a cabeça ao seu ombro e mais uma vez depositou um beijo inocente no dourado dos seus cabelos. Pegou-lhe na mão e levou-a aos lábios. Beijou-lhe a palma da mão, os dedos, um por um, olhando-a nos olhos. Conversaram um bocado.
Parecia que se conheciam de toda a vida, desde sempre...
Eu gostei logo de ti, quando me deparei com
a primeira fotografia! Depois vi outras e pensei, adorava ter esta mulher nos
braços, adorava beijar esta boca, tocar estes cabelos, olhar profundamente
estes olhos... Depois dizia: sonha, sonha, deves, deves... E agora tenho-te
aqui e já te beijei e abracei, sem querer claro!, foi para não caíres... Riu e
ela sorria e franzia o sobrolho.
Vamos. Entretanto tenho de te
deixar. Que pena! Ficava contigo o resto da vida! Ah, ficavas, isso querias tu!
Pois queria, tu és tudo o que um homem pode sonhar! Não me conheces! Claro que
conheço, há quanto tempo teclamos? Desceram de mãos dadas. Pararam junto a uma
porta de uma igreja ou de um monumento, não se lembrava bem. Começou a ler a
inscrição em latim e ele desceu o degrau, ficando quase ao mesmo nível dela.
Que sou eu para ti? Ela olhou-o nos olhos sem perceber muito bem a pergunta e
sem saber o que responder. Não dizes nada? Não queria dizer nada, que poderia
dizer. Ele olhava-a interrogativamente, à espera. Ela puxou-o para si e
beijou-o com força, lambendo-lhe os lábios, mordendo-os, chupando-os... Por
fim, enfiou-lhe a língua na boca e entrelaçou-a na dele, passou-lha pelos dentes,
pelos lábios... Eh lá, pensava que ele estava adormecido, mas está a soltar-se,
a crescer... Ressuscitou. Ela sorriu contra a boca dele e sentia a erecção dele contra o seu
corpo...
Passos, oiço passos, é ele e ela encostada à porta de olhos fechados... Acorda!

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