sexta-feira, 21 de junho de 2013

A chave



Esta semana tem sido muito sossegada! Dormiu aqui, unicamente, um casal de idosos que veio festejar as bodas de ouro, cinquenta anos de matrimónio, uma vida... Foi uma noite de carinho e de conversa, recordações, memórias, lágrimas de alegria e algumas de tristeza também...
Descansei sobre o gentil travesseiro e pensei nos vários casalinhos que têm passado por aqui...
Estava neste processo de abstracção, a sentir um certo tédio, até, quando a vi entrar: loura, bonita, sorridente, vestida com gosto...
Deu uma volta ao quarto, foi à varanda, debruçou-se no varandim a contemplar a paisagem campestre. Foi onde ele a encontrou. Agarrou-a por trás, beijou-lhe o pescoço.
- Já chegaste há muito?
- Não. Mesmo agora.
Ela virou-se e lançou-lhe os braços ao pescoço, beijaram-se e os dedos dela enfiaram-se-lhe no cabelo fino, levemente encaracolado, enquanto as mãos dele se metiam por baixo da blusa de seda.
- Que saudades!
- Ainda ontem nos vimos – disse ela a sorrir.
- Vemo-nos quase todos os dias, mas não te posso tocar.
Ele deu-lhe a mão e puxou-a para dentro...
- Tenho uma coisa para ti, um presente.
- Um presente? Tu sabes que eu não quero presentes, só te quero a ti, mais nada.
- Eu sei, mas este é um presente especial.
Sentaram-se: ela na cama, ele em frente, puxando a poltrona para perto dela. Depositou-lhe na mão um pequeno embrulho.
- Acho melhor não aceitar.
- Abre, ainda não viste.
- Uma chave?
- Sim. É a chave do nosso ninho.
- Não percebo.
- Essa chave é de um apartamento que tenho na praia. A partir de agora é lá que nos vamos encontrar... Já estou a imaginar-te na cama, nua, à minha espera...
- Tu estás doido. Só podes estar. Não quero encontrar-me contigo em tua casa. Que loucura é essa? Um dia, aparece a tua mulher...
Não a deixou prosseguir, colocou-lhe o dedo nos lábios e abanou a cabeça negativamente:
- Tem calma, ela não sabe da existência desta casa. É minha, só minha!
- Não. Toma, não quero chave nenhuma. Como é que tens uma casa e ela não sabe? Não. Não. Não.
- Oh! Não gostaste da surpresa?
- Não gostei e não vou encontrar-me contigo nessa casa. Estás louco, alguém nos via e depois?
- Não te zangues, se mudares de ideias, falamos depois... Pode ser?
E resvalou do cadeirão, joelhou-se-lhe aos pés e abraçou-a, beijando-lhe os olhos, o nariz, a boca...
- Tu enlouqueces-me!
- Eu? Não fiz nada! Estou aqui tão quietinha!
- Custa-me tanto quando estamos juntos, fingir que me és totalmente indiferente. Custa-me tanto, quando os vejo a olhar para ti! Custa-me tanto, quando te sentas mesmo ao meu lado nas reuniões e não te posso meter as mãos nas pernas... Nem sabes o quanto me apetece, ali, com toda a gente, enfiar as mãos por baixo do teu vestido...
- Louco, tu és louco!
- Por ti... doido, completamente doido!
- É que és mesmo.
- Tu provocas-me, eu bem vejo como te insinuas... Fazes de propósito. Custa-me tanto, não poder beijar-te... às vezes não resisto e para te dar um beijo, para aspirar o teu perfume, tenho de beijar o mulherio todo que se encontra na sala.
- Eu sei! Tenho-me apercebido.
- Tu ris!
- Que queres que faça? Só posso rir, é engraçado.
- Nunca pensaste na hipótese de ficarmos juntos?
- Pronto, endoideceste mesmo! Não, nunca pensei, não quero sequer pensar...
- Nem um bocadinho só? Nunca pensaste como seria?
- Não. Sou amiga da tua mulher, não quero que ela saiba de nós nem que sonhe... Acho que já arriscas um bocado, nos jantares, almoços, festas..., quando me elogias à frente dela e lhe perguntas se tens ou não razão... A primeira vez que o fizeste, fiquei aflita. Não te rias, fiquei mesmo!
- E o teu marido?
- O que tem o meu marido?
- Nada. Não desconfia de nada?
- Desconfia tanto como a tua mulher. Mas encontrámo-nos para falarmos sobre os nossos companheiros?
- Tenho ciúmes dele, confesso.
- Tonto, não és tu que dizes que os amantes ficam com a melhor parte?
- Por vezes, pergunto-me se tu, com ele, fazes o que fazes comigo?
- Que pergunta tola. Nada. Contigo sou outra.
- Eu contigo também sou outro. É tudo diferente e é tudo tão bom.
- Então, não voltamos a perder tempo com conversas destas, pode ser? Não quero, quando estou contigo, falar sobre mais ninguém...
Levantou-se, puxou-o para cima. Rodaram, empurrou-o para a cama e atirou-se para cima dele a rir, procurando-lhe a boca, lambendo-lhe os lábios de baixo para cima, contornando-os com a língua...
- Tu és tão amorosa aqui comigo e tão distante e arisca lá fora.
- Pois sou - disse, penetrando-lhe a boca com a língua e esticando-lhe os braços, mãos nas mãos, pressionando o corpo com força contra o dele, metida entre as suas pernas fortes.

1 comentário:

  1. Há ligações assim mesmo.
    Mais uma vez, gostei da tua narrativa.
    Penso que sei qual é o teu outro blogue... mas se não me quiseres dizer, não há problema.
    Querida amiga, tem um bom fim de semana.
    Beijo.

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