domingo, 28 de abril de 2013

Dois banquetes




A luz ténue e leitosa da lua inundava o quarto e beijava docemente os corpos nus dos dois amantes. Ela estremeceu.
        - Tenho frio e fome.
Abraçou-a, estava gelada, cobriu-a com a colcha, depois de lhe beijar os ombros frios, e passou o braço por cima de mim para chegar ao telefone.
Tinham adormecido, sem jantar. Puxou-a para si, encaixou-se nela, beijou-lhe a nuca, aspirou o seu perfume.
Bateram de leve à porta. Levantou-se, enrolou-se numa toalha e lá estava o carrinho cheio de coisas boas para saborearem. Arrastou o carro, colocou-o ao lado da cama, pegou em dois bagos de uva e meteu-os na boca dela.
        - Hummmm... Caramba! – disse com dificuldade.
Não a deixou continuar, beijou-lhe os lábios avidamente, roubando-lhe parte de um bago meio desfeito. Depois, molhou um morango no chocolate, prendeu-o nos dentes e procurou-lhe a boca... Beijavam-se e comiam, lambiam os lábios um do outro. Dois banquetes.  Ele pegou num copo e encheu-o de um vinho púrpura, sorveu um pouco, virou-se e deu-lho a beber da sua boca. Com a língua, lambeu-lhe um fio que lhe escorreu dos lábios para o queixo, mordiscou-lhe a boca. Ainda com o copo na mão, foi empurrando o corpo dela com o seu e com a mão liberta, até a deitar. Apoiou-se no cotovelo e debruçado sobre aquele corpo de sereia, começou a pingar-lho com o vinho e a sorvê-lo, a lambê-lo... Ela molhou os dedos no vinho e passou-lhos pela boca. Ele passou a língua pelos lábios, pelos dedos dela, beijou-lhos, chupou-lhos, mordeu-lhos. A seguir, entornou umas gotas  entre e sobre os seios dela e veio descendo vertendo o vinho, encheu-lhe o umbigo... Ela estremecia. Largou o copo, joelhou-se entre as pernas dela e sorveu cada gota daquele néctar vermelho-escuro, entre beijos, lambidelas, mordidinhas... De vez em quando, ela gemia baixinho. Chegado ao umbigo, bebeu o seu conteúdo e lambeu o que transbordara para os lados e para baixo. Agarrou-a pelas nádegas, escorregou para o fundo da cama, abriu-lhe mais as pernas e lambeu e beijou-lhe o clítoris, mordiscou-lho levemente. Por fim, atingiu a gruta que sorveu e penetrou com a língua... O corpo dela estremecia fortemente.
Ela, excitada, começou a puxá-lo para cima e ele fez deslizar o seu corpo por cima do dela. Quando chegou ao topo, beijou-lhe os lábios desvairadamente, depois, parou, olhou-a nos olhos e penetrou-a com toda a força. Gemeram ambos de prazer.
       - Tu pões-me louco, completamente desvairado. É tão bom estar dentro de ti, sinto-te toda.
Ela cravou-lhe as unhas nas nádegas e entre gemidos, beijos e palavras de amor atingiram o êxtase juntos. Ele procurou-lhe os olhos, beijou-a e resvalou, saindo de dentro dela. Abraçou-a fortemente e voltou a beijar-lhe os lábios entreabertos.
O sol começava a raiar.
Desenlaçaram-se. Ele adormeceu.
Ela levantou-se, olhou-o. Entrou na casa de banho. Pouco depois, saiu, enrolada numa toalha. Sem fazer barulho, vestiu-se. Pôs um morango na boca. Procurou dentro da mala um pequeno bloco e uma caneta. Escreveu algo. Arrancou a folha, beijou-a e colocou-a sobre mim, ao lado do corpo dele adormecido. Olhou-o, beijou-lhe os lábios suavemente. Ele gemeu baixinho, mexeu-se.
Ela pegou na mala, nos sapatos e saiu clandestinamente. Fechou a porta. Sorriu.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

As fotos não são pessoas




Duas da tarde. A porta abriu-se, deixando passar uma senhora alta, elegante, bonita. Ele, atrás, fechou a porta com o pé e enlaçou-a pelos ombros. Levantou-lhe o cabelo e beijou-lhe o pescoço. Ela estremeceu, virou-se devagar, recuou até aos pés da cama e encostou-se, olhou-o desconfiada, mas não receosa. Sentou-se.
          - Há três anos que espero por este momento, - disse ele, enquanto lhe agarrava o rosto bonito e a olhava nos olhos.
Aquele olhar seduzira-o desde sempre, aqueles olhos grandes, adornados de longas e belas pestanas, diziam tudo. Ela baixou o olhar, incomodada, parecia que ele lhe queria entrar pelos olhos...
Ele levantou-lhe o rosto com um dedo e beijou-a levemente como um roçar de asas, sempre a olhá-la nos olhos.
           - O teu olhar, não sei o que tem o teu olhar, mas deixa-me doido, passo horas a olhar para os teus olhos e não me canso. A foto já está gasta de tanto a olhar.
Ela mantinha-se quieta, as mãos no regaço. Ele falava e beijava-a, ela ouvia calada, sem reacção...
           - Não dizes nada? Que se passa? Sou muito diferente? Não me conhecias pessoalmente, mas há três anos que conversamos todos os dias, que trocamos mensagens, que falamos ao telefone...
Ai, a voz dela! Quando a ouviu pela primeira vez, linda, jovial, sensualíssima, tremeu. A voz começou a sair-lhe aos tropeções, ficara nervoso, apaixonara-se mais ainda. Quem disse que não nos podemos apaixonar por uma pessoa, só pela fotografia? Quem disse ser impossível ficarmos completamente loucos por uma voz? Ela era bonita, culta, inteligente e tinha uma voz capaz de dar vida aos mortos. Sempre que falavam ao telefone, a voz tremia-lhe, tentava tudo para se manter calmo, mas não conseguia. Do outro lado, ela apercebia-se e ria. Ai, aquele riso, natural, límpido, fresco! O sorriso já ele conhecia das fotografias!
           - As fotos não são pessoas! – exclamou ela.
           - Ficaste desiludida? Ficaste? Queres ir embora?
Não podia deixá-la ir! Nem pensar! Puxou-a para si, apertou-a nos braços e procurou-lhe a boca. Ela, primeiro, resistiu, mas, depois, deixou-se levar.
           - Ai, a tua boca sabe tão bem. É tão boa! Os teus lábios parecem polpa de fruta...
A boca dele sabia a pastilha de mentol, misturada com tabaco e  os seus beijos tão apressados! Calma, pensou, vais comer-me, engolir-me... Que sofreguidão!
Ela preferia ir lentamente: lamber os lábios, mordiscá-los, chupá-los... Tudo muito devagar! Procurar-lhe a língua com a sua, lamber-lha, chupar-lha até quase lhe arrancar a alma... Ele, no entanto, continuava apressado. As mãos exploravam-lhe o corpo, enfiavam-se por debaixo da roupa.
           - Meu Deus, tens pele de bebé! Desejei tanto este momento, desejo-te há tanto tempo...
Tirou-lhe a blusa e sempre a beijá-la, sempre com ela bem presa nos seus braços, devagar, deitou-a e beijou-lhe o pescoço, o peito, o V que lhe separava os seios. Desenvencilhou-se da camisa, dos sapatos. Roçou o seu corpo no dela. Com os pés, descalçou-a. Beijava-lhe o umbigo e desapertava as calças dele  e as dela. Por fim, ficaram praticamente nus. Ele parou. Ela, que mantivera os olhos fechados até aí, abriu-os e olhou-o. Ele estava a observá-la. Os olhares cruzaram-se.
Afastaram-me e às demais almofadas.
           - Tu és linda, uma deusa! Só de te olhar, enlouqueço.
Deitou-se ao seu lado, virou-a para si, desapertou-lhe o soutien e beijou-lhe os mamilos e foi beijando, sorvendo aquele perfume bom.  Desprenderam-se do resto da roupa e enlaçaram-se fortemente.
           - Estou tão excitado! Já estava, só de pensar que ia estar contigo... Tu pões-me louco! Não sei se me consigo aguentar... Caramba, o que é que tu tens? Nunca fiquei assim com mulher nenhuma.
Ela riu-se e ele ergueu-se de modo a ver-lhe o rosto e ficou a olhá-la. O seu riso era lindo, cantante.
           - Tu és doce, mas solta-te, estás tensa ainda! Diz que me queres! Diz.
Tombou de novo sobre ela e beijou-a, as bocas ávidas procuravam-se agora com violência. Ela, por fim, cravou-lhe os dedos nas costas e puxou-o para ela.
           - Isso. Fico louco.
Afastou-lhe as pernas e, olhando-a nos olhos começou a entrar dentro dela.
           - Não. Não feches os olhos. Deixa-me olhá-los, deixa-me ver como ficam, enquanto fazemos amor.
Ela cravou-lhe as unhas nas costas e ouviu-se um gemido. Puxou-o com força para ela, enlaçou-o com as pernas.
           - Ai, não! Tu excitas-me tanto!
Ele rodou, ficando por baixo dela.
Agora, estás à minha mercê, pensou ela, cavalgando-o devagar, depressa, devagar, devagar, lentamente, rodando, contorcendo-se... Ele gemia de prazer. De repente, ela parou. Ele abriu os olhos inquiridores, espantados. Ela deitou-se sobre ele, beijou-lhe os lábios, mordendo-os e recomeçou o vaivém vagarosamente, progressivamente... Ficou, depois, com os joelhos junto aos quadris dele, sobre ele, e subia e descia até ao fundo e subia até o membro ficar quase totalmente fora dela. Estava grande, eriçado, duro, totalmente lambuzado. A seguir, desceu até ao fundo de forma tão violenta que ele gritou:
           - Malvada, matas-me, assim venho-me.
E o riso dela suava cristalino.
           - Espera por mim – pediu-lhe. – Não te atrevas... Bato-te, mordo-te todo.
           - Louca, tu és louca e pões-me doido!
O sol descia sobre o mar e a noite cavalgava, subindo. Anoiteceria, entretanto.  E ela descia e subia, descia e subia.
           - Não aguento mais!
Virou-a, colocou-se por cima dela, e enfiou-se todo dentro dela. Ela gemeu, contorceu-se, dançou com ele a dança do amor e, de repente, bramiram ambos, mas abafaram o grito com um longo beijo e um abraço apertado. Ele deslizou sobre ela e adormeceram abraçados...
Só sentia, junto a mim, a respiração agora lenta e tranquila dos dois.


terça-feira, 23 de abril de 2013

Desencontros



Ele entrou, fechou a porta docemente e olhou em redor. Abriu as portas de correr que davam para a pequena sala e fez deslizar também as da casa de banho. Não estava ninguém. Tanto melhor. Tirou três rosas vermelhas de dentro do saco e separou a mais bonita. As outras duas, esfolhou-as, espalhou algumas pétalas perfumadas em cima da cama e foi colorindo o chão, num rasto vermelho, até à grande banheira. Sentou-se na senhorinha e admirou a decoração luxuosa, olhou para as últimas pétalas e atirou-as para dentro da grande tina branca. Vistas dali, pareciam pequenos corações rubros. Levantou-se e veio deitar sobre mim a última rosa. Ensaiou: no meio, mais à direita, do lado esquerdo, ao meu lado, no meio da cama... Passou os dedos pelas letras desenhadas, sorriu, e dispôs a flor, depois de a beijar,  ao lado do A. Sentou-se no canapé e tirou um cigarro que colocou na ponta dos lábios.
      - Fumas?
      - Não e tu?
      - Um cigarro ou outro, quando estou nervoso.
      - Já beijaste alguma mulher que fuma?
Como não obteve resposta, prosseguiu:
      - Os beijos sabem mal, o hálito... não sabes a ti nem cheiras a ti. O cheiro do tabaco é o teu perfume de marca... Fica impregnado... Quando beijo um homem, quero sentir o seu sabor, o seu cheiro, a textura aveludada dos seus lábios...
Tirou o cigarro da boca, cheirou-o, franziu a testa... Só agora dava conta do cheiro desagradável... Enfiou o cigarro na caixa e deitou-a no lixo.
Olhou o relógio. Ela não vem. Suspirou. Saiu, olhando de relance a rosa e as pétalas que se confundiam com as flores lavradas da colcha.
Fiquei ali a aspirar o perfume inebriante da rosa.
Ouvi passos miúdos no corredor, um toc-toc dos saltos de uns sapatos de senhora. Parou. Rodou a chave. Espreitou. Por fim, decidiu entrar. Olhou à sua volta, nos seus olhos percebia-se um misto de decepção e de alívio. Sentou-se junto a mim, pegou na rosa, aspirou o seu perfume e beijou-a tal como ele fizera. Deitou-se para trás com a rosa sobre o peito. A sua cabeça era um turbilhão de recordações, de lembranças: conheceu-o nas redes sociais, ele pedira-lhe amizade. Levou dias até aceitar, visitou a página dele inúmeras vezes, leu tudo o que ele publicou, leu comentários, viu fotos...  Ele deve ter feito o mesmo, mas foi mais ousado: comentou as suas fotos, escreveu mensagens, pequenos poemas... Por fim, não resistiu e aceitou-o no seu núcleo de amigos. Todos os dias “conversavam” um pouco. Quando ela se demorava, ele escrevia um “finalmente” maiúsculo e um “pensava que te tinha acontecido alguma coisa”. Ele insistiu para falarem ao telefone, deu-lhe o número vezes sem conta e ela apagava-o juntamente com a conversa tida...
Suspirou alto,  ergueu-se, alisou o vestido, sacudiu o cabelo que lhe caía em cascata sobre os ombros, pegou na mala e na rosa, sorriu-me e saiu.
Desencontros, pensei.

domingo, 21 de abril de 2013

Um filme a preto e branco: um sonho



Fiquei ali, meio encolhida, à espera... voltaria para trás, quando desse pela minha falta?
Com os olhos pregados na porta, passavam mil imagens, como num filme a preto e branco, antigo, cheio de cortes e de partes indecifráveis... flashes... cenas rápidas... clarões... lembranças… ideias vagas… visões muito rápidas… Tudo passava demasiado rápido, como se o passado quisesse desaparecer e dar lugar a outras vivências... Mas, a porta continuava fechada, cerrada, separando-me completamente do meu mundo anterior, de uma outra vida.
Passos. Sonho? Sim. Sonho que me vêm buscar finalmente. Abro os olhos, ponho-me à escuta. Vozes. Várias vozes: mulheres, homens.
A porta! Vão abrir a porta! É a minha salvação! Regressou.
E um batalhão de gente desconhecida, fardada, irrompe pelo quarto. Quem são estes? Abrem janelas, limpam, sacodem, lavam, riem, mudam toalhas, dispõem flores nas jarras, regam as plantas, riem... De repente, atiram-me  para o canapé antigo, juntamente com almofadões, almofadas, almofadinhas, travesseiros. Soergui-me para ver aquela azáfama toda, apoiei-me no simpático travesseiro que percebeu logo a minha intenção e me ajudou prontamente, muito delicado e solicito. Tiraram a roupa da cama e substituíram tudo: uns lençóis muito brancos, lisos e perfumados foram esticados sobre o colchão, depois um edredão macio que deixou que caísse sobre si, como uma língua, uma larga gola de rendas e bordados.. Por fim, uma colcha de um vermelho muito escuro lavrado de flores. Logo, umas mãos muito pouco delicadas começaram a dispor-nos sobre a coberta ajardinada e, quando chegou a minha vez, virou-me e revirou-me como se nunca me tivesse visto. E não tinha mesmo! Mostrou-me aos outros, mas acabou por me deitar sobre os braços do meigo travesseiro entre as almofadas e os almofadões.
A porta abriu-se mais uma vez. Uma senhora bonita entrou, olhou tudo em redor com um sorriso, acenou afirmativamente, dando ordens para aqueles brutamontes saírem. Fechou as janelas, ajeitou melhor as flores, sorriu satisfeita, encaminhou-se para a porta,  mas vacilou, virou-se e o seu olhar pousou sobre a cama, sobre mim, interrogativo. Sentou-se e pegou-me com todo o carinho, apertou-me contra o peito, passou as mãos suaves sobre os meus folhos e folhinhos, nervuras e nervurinhas, rendas e rendinhas... Colocou-me no colo e os seus dedos esguios contornaram suavemente as letras entrelaçadas bordadas... Ficou a olhar, pensativa. Sorriu-me, abraçou-me de novo e deitou-me sobre a cama, semi-reclinada sobre o travesseiro, mas, desta vez, com o monograma de pé. Saiu, depois de alisar a colcha. Adormeci e sonhei com a minha menina loura...