sexta-feira, 19 de abril de 2013

Uma simples e singela almofada



Sou uma bela e sensual almofada. Comecei por ser singela, simples... Uma simples e singela almofada num leito de menina, também simples e singelo, mas de um conforto ímpar. A dona daquele tálamo quente era uma menina de loiros caracóis, caídos em cascata sobre os ombros. E havia sempre uma melena dourada que lhe descaía teimosamente sobre o rosto e que lhe cobria, muitas vezes, o verdor do olhar misterioso. As mãos travessas da linda menina, muitas vezes, descuidadas, coisas da pouca idade, tratavam-me com algum desleixo: ora me lançava num voo picado para o chão, zangada, ora me enlaçava a rir, numa dança frenética, desvairada, num rodopio sem fim, que terminava muitas vezes no chão suave, atapetado de cor-de-rosa, ou na cama de folhos, folhinhos, bordados e bordadinhos, que se lamentava num murmúrio quase mudo do pouco cuidado que a menina tinha com a sua roupa de leito de princesa. Outras vezes, abraçava-se a mim num soluçar tão violento, num choro tão lamurioso e gemebundo que quase me fazia esquecer do quão desagradável era ficar toda molhada e babada... A menina acabava por adormecer entre trémulos e intensos  gemidos e acordava já menos triste, mas com os olhos vermelhos e inchados, não lhes ofuscando, no entanto, o deslumbrante verde campestre, um prado bordado por umas enormes pestanas sedosas e brilhantes.
A menina crescia e eu acompanhava aquele crescer, eu era a companheira, a amiga, a confidente e a testemunha calada de muitos idílios amorosos.  Só me era pedido que fosse discreta!
Um dia, a menina, agora uma mulherzinha graciosa, casou, mas o seu esbelto e elegante companheiro não compreendia a cumplicidade que havia entre nós e tinha ciúmes... Imaginem, ciúmes, desconfianças,  de uma simples almofada!
E num passeio ao estrangeiro, o gentil marido rodeou a bela esposa de flores, de presentes... e, na hora do regresso, fiquei esquecida num quarto de hotel de luxo sobre a cama, recostada no mais simpático e atraente travesseiro que alguma vez vi...

1 comentário:

  1. Sempre mudaste de ares, ou seja, de cabeças...
    Gosto da tua narrativa, são muito interessantes as tuas "Confissões Secretas".
    Beijo e bom fim de semana.

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