Fiquei
ali, meio encolhida, à espera... voltaria para trás, quando desse pela minha
falta?
Com os
olhos pregados na porta, passavam mil imagens, como num filme a preto e branco,
antigo, cheio de cortes e de partes indecifráveis... flashes... cenas
rápidas... clarões... lembranças… ideias vagas… visões muito
rápidas… Tudo passava demasiado rápido, como se o passado quisesse desaparecer
e dar lugar a outras vivências... Mas, a porta continuava fechada, cerrada,
separando-me completamente do meu mundo anterior, de uma outra vida.
Passos. Sonho? Sim. Sonho que me vêm buscar finalmente. Abro os
olhos, ponho-me à escuta. Vozes. Várias vozes: mulheres, homens.
A porta! Vão abrir a porta! É a minha salvação! Regressou.
E um batalhão de gente desconhecida, fardada, irrompe pelo
quarto. Quem são estes? Abrem janelas, limpam, sacodem, lavam, riem, mudam
toalhas, dispõem flores nas jarras, regam as plantas, riem... De repente, atiram-me
para o canapé antigo, juntamente com
almofadões, almofadas, almofadinhas, travesseiros. Soergui-me para ver aquela
azáfama toda, apoiei-me no simpático travesseiro que percebeu logo a minha
intenção e me ajudou prontamente, muito delicado e solicito. Tiraram a roupa da
cama e substituíram tudo: uns lençóis muito brancos, lisos e perfumados foram
esticados sobre o colchão, depois um edredão macio que deixou que caísse sobre
si, como uma língua, uma larga gola de rendas e bordados.. Por
fim, uma colcha de um vermelho muito escuro lavrado de flores. Logo, umas mãos
muito pouco delicadas começaram a dispor-nos sobre a coberta ajardinada e,
quando chegou a minha vez, virou-me e revirou-me como se nunca me tivesse
visto. E não tinha mesmo! Mostrou-me aos outros, mas acabou por me deitar sobre
os braços do meigo travesseiro entre as almofadas e os almofadões.
A porta abriu-se mais uma vez. Uma senhora bonita entrou, olhou
tudo em redor com um sorriso, acenou afirmativamente, dando ordens para
aqueles brutamontes saírem. Fechou as janelas, ajeitou melhor as flores, sorriu
satisfeita, encaminhou-se para a porta, mas vacilou, virou-se e o seu olhar pousou sobre a
cama, sobre mim, interrogativo. Sentou-se e pegou-me com todo o carinho,
apertou-me contra o peito, passou as mãos suaves sobre os meus folhos e
folhinhos, nervuras e nervurinhas, rendas e rendinhas... Colocou-me no colo e
os seus dedos esguios contornaram suavemente as letras entrelaçadas bordadas...
Ficou a olhar, pensativa. Sorriu-me, abraçou-me de novo e deitou-me sobre a
cama, semi-reclinada sobre o travesseiro, mas, desta vez, com o monograma de
pé. Saiu, depois de alisar a colcha. Adormeci e sonhei com a minha menina loura...

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