domingo, 21 de abril de 2013

Um filme a preto e branco: um sonho



Fiquei ali, meio encolhida, à espera... voltaria para trás, quando desse pela minha falta?
Com os olhos pregados na porta, passavam mil imagens, como num filme a preto e branco, antigo, cheio de cortes e de partes indecifráveis... flashes... cenas rápidas... clarões... lembranças… ideias vagas… visões muito rápidas… Tudo passava demasiado rápido, como se o passado quisesse desaparecer e dar lugar a outras vivências... Mas, a porta continuava fechada, cerrada, separando-me completamente do meu mundo anterior, de uma outra vida.
Passos. Sonho? Sim. Sonho que me vêm buscar finalmente. Abro os olhos, ponho-me à escuta. Vozes. Várias vozes: mulheres, homens.
A porta! Vão abrir a porta! É a minha salvação! Regressou.
E um batalhão de gente desconhecida, fardada, irrompe pelo quarto. Quem são estes? Abrem janelas, limpam, sacodem, lavam, riem, mudam toalhas, dispõem flores nas jarras, regam as plantas, riem... De repente, atiram-me  para o canapé antigo, juntamente com almofadões, almofadas, almofadinhas, travesseiros. Soergui-me para ver aquela azáfama toda, apoiei-me no simpático travesseiro que percebeu logo a minha intenção e me ajudou prontamente, muito delicado e solicito. Tiraram a roupa da cama e substituíram tudo: uns lençóis muito brancos, lisos e perfumados foram esticados sobre o colchão, depois um edredão macio que deixou que caísse sobre si, como uma língua, uma larga gola de rendas e bordados.. Por fim, uma colcha de um vermelho muito escuro lavrado de flores. Logo, umas mãos muito pouco delicadas começaram a dispor-nos sobre a coberta ajardinada e, quando chegou a minha vez, virou-me e revirou-me como se nunca me tivesse visto. E não tinha mesmo! Mostrou-me aos outros, mas acabou por me deitar sobre os braços do meigo travesseiro entre as almofadas e os almofadões.
A porta abriu-se mais uma vez. Uma senhora bonita entrou, olhou tudo em redor com um sorriso, acenou afirmativamente, dando ordens para aqueles brutamontes saírem. Fechou as janelas, ajeitou melhor as flores, sorriu satisfeita, encaminhou-se para a porta,  mas vacilou, virou-se e o seu olhar pousou sobre a cama, sobre mim, interrogativo. Sentou-se e pegou-me com todo o carinho, apertou-me contra o peito, passou as mãos suaves sobre os meus folhos e folhinhos, nervuras e nervurinhas, rendas e rendinhas... Colocou-me no colo e os seus dedos esguios contornaram suavemente as letras entrelaçadas bordadas... Ficou a olhar, pensativa. Sorriu-me, abraçou-me de novo e deitou-me sobre a cama, semi-reclinada sobre o travesseiro, mas, desta vez, com o monograma de pé. Saiu, depois de alisar a colcha. Adormeci e sonhei com a minha menina loura...

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