Ele entrou, fechou a porta docemente
e olhou em redor. Abriu as portas de correr que davam para a pequena sala e fez
deslizar também as da casa de banho. Não estava ninguém. Tanto melhor. Tirou
três rosas vermelhas de dentro do saco e separou a mais bonita. As outras duas,
esfolhou-as, espalhou algumas pétalas perfumadas em cima da cama e foi colorindo
o chão, num rasto vermelho, até à grande banheira. Sentou-se na senhorinha e
admirou a decoração luxuosa, olhou para as últimas pétalas e atirou-as para
dentro da grande tina branca. Vistas dali, pareciam pequenos corações rubros.
Levantou-se e veio deitar sobre mim a última rosa. Ensaiou: no meio, mais à
direita, do lado esquerdo, ao meu lado, no meio da cama... Passou os dedos
pelas letras desenhadas, sorriu, e dispôs a flor, depois de a beijar, ao lado do A. Sentou-se no canapé e tirou um cigarro que colocou na ponta dos
lábios.
- Fumas?
- Não e tu?
- Um cigarro ou outro, quando estou
nervoso.
- Já beijaste alguma mulher que fuma?
Como não obteve resposta,
prosseguiu:
- Os beijos sabem mal, o hálito... não
sabes a ti nem cheiras a ti. O cheiro do tabaco é o teu perfume de marca... Fica impregnado... Quando beijo um homem, quero sentir o seu sabor, o seu cheiro, a textura
aveludada dos seus lábios...
Tirou o cigarro da boca, cheirou-o,
franziu a testa... Só agora dava conta do cheiro desagradável... Enfiou o
cigarro na caixa e deitou-a no lixo.
Olhou o relógio. Ela não vem.
Suspirou. Saiu, olhando de relance a rosa e as pétalas que se confundiam com as
flores lavradas da colcha.
Fiquei ali a aspirar o perfume
inebriante da rosa.
Ouvi passos miúdos no corredor, um
toc-toc dos saltos de uns sapatos de senhora. Parou. Rodou a chave. Espreitou.
Por fim, decidiu entrar. Olhou à sua volta, nos seus olhos percebia-se um misto
de decepção e de alívio. Sentou-se junto a mim, pegou na rosa, aspirou o seu
perfume e beijou-a tal como ele fizera. Deitou-se para trás com a rosa sobre o
peito. A sua cabeça era um turbilhão de recordações, de lembranças: conheceu-o
nas redes sociais, ele pedira-lhe amizade. Levou dias até aceitar, visitou a
página dele inúmeras vezes, leu tudo o que ele publicou, leu comentários, viu
fotos... Ele deve ter feito o mesmo, mas
foi mais ousado: comentou as suas fotos, escreveu mensagens, pequenos poemas...
Por fim, não resistiu e aceitou-o no seu núcleo de amigos. Todos os dias
“conversavam” um pouco. Quando ela se demorava, ele escrevia um “finalmente”
maiúsculo e um “pensava que te tinha acontecido alguma coisa”. Ele insistiu
para falarem ao telefone, deu-lhe o número vezes sem conta e ela apagava-o
juntamente com a conversa tida...
Suspirou alto, ergueu-se, alisou o vestido, sacudiu o cabelo
que lhe caía em cascata sobre os ombros, pegou na mala e na rosa, sorriu-me e
saiu.
Desencontros, pensei.

Uma história que promete (aparentemente é para continuar...).
ResponderEliminarBeijo.