domingo, 4 de agosto de 2013

Um mundo só nosso





A descarada da empregadita atirou-me desajeitadamente para cima da poltrona e, quando terminou o serviço, esqueceu-me, debruçada sobre o braço forte do robusto cadeirão. Tentei acomodar-me o melhor possível, mas faltava-me o doce travesseiro para me acariciar os folhos e as nervuras... Agora, estava ele, com o ar mais tristonho e desprotegido deste mundo a olhar-me. Por fim, adormeci, depois de muito me remexer sobre o grosso veludo lavrado. 
E, ao acordar, fiquei surpreendida. Mesmo à minha frente, sentado com a cabeça entre as mãos e os cotovelos apoiados nas pernas, estava a Vitória, o indivíduo que cá estivera há coisa de uma ou duas semanas, não conseguia precisar bem. Estava acabrunhado,  abatido, pensativo, triste... Não me apercebi da sua chegada. Mas, que era estranho, era! Que estava ele a fazer ali sentado? Lembro-me da sua companheira ter dito que nunca deveriam repetir o lugar de encontro. Era a mulher bonita que recusou o presente, uma chave. Alguma coisa lhe deveria ter acontecido para estar ali e naquele estado tão prostrado, tão infeliz... A sua cara de desânimo incomodava-me. As pessoas iam ali para serem felizes!... Só para serem felizes!
E estava eu a tecer considerações, a reflectir sobre a condição humana e a busca da felicidade, do amor, do bem-estar... e nem a vi entrar. E ali estava ela, altiva e majestosa, no seu vestido de croché cor de marfim sobre a pele ligeiramente dourada, as sandálias de salto que lhe alongavam as pernas bem torneadas e levemente bronzeadas. No rosto, um certo ar enigmático misturado com alguma inquietação. De repente, pareceu-me que a vontade dela era gritar, barafustar, reclamar alto e bom som o quão incauto era aquele segundo encontro ali... Os olhos dela brilhavam de insatisfação, a boca era uma linha de desagrado, com um sorriso meio torcido... Mas, ao olhá-lo, as suas feições foram-se adocicando, amaciando... Aquele abatimento afligia-a...
Aproximou-se, ajoelhou-se à sua frente e, com um dedo, ergueu-lhe o rosto. Os seus olhos encontraram-se e ela depositou-lhe nos lábios um beijo leve, como se fosse uma doce borboleta a poisar numa terna e bela flor. Os lábios dele tremeram àquele contacto. Ficaram, por momentos, sem nada dizer, olhando-se apenas nos olhos. Os olhos dele pareciam querer entrar naqueles olhos esperança...
- Que se passa? Não quero ver-te assim!
- Não consigo, a minha vida parece um castelo de cartas prestes a cair. Desculpa pedir-te para vires aqui, mas precisava de ver-te, de falar-te, de tocar-te...
- Mas, o que aconteceu, não tínhamos combinado que durante as férias não nos veríamos?
- Sim, mas esta semana foi horrível, como posso passar um mês sem te ver, sem te tocar, sem ouvir o teu riso?...
- Setembro chega logo e há o telefone, as redes sociais... Não é preciso fazeres um drama.
- Tu não me amas, como eu te amo!
- Não digas disparates! – disse a sorrir. – Onde está aquela tua teoria de que numa ligação amorosa há sempre um que ama mais... Sorri, vá lá! Eu estou aqui, não estou! Vim logo, não vim? Só pode ser porque te amo, não?
- Ontem, aconteceu-me uma coisa estranhíssima: estava com a Vera, beijava-a, mas era a tua boca que eu buscava na dela e não a sentia; olhava-a nos olhos, mas eram os teu olhos verdes que eu queria ver, não os dela. Pareciam mato queimado. Os olhos dela pareciam os teus depois de um incêndio... Fiquei aflito! Fechei os olhos, não queria fitar aqueles olhos castanhos, mortiços; queria os teus, vivos, verdejantes, cheios de esperança... 
Ela abraçou-me e não eram os braços roliços dela que eu queria à minha volta, eram os teus que eu queria, os teus que me apertam com tanta força; as tuas mãos que me apertam as nádegas como se me quisesses pôr todo dentro de ti; eram as tuas mãos que eu queria a afagarem-me as costas, eram as tuas unhas que eu queria cravadas nas minhas costas, no meu corpo, nas minhas nádegas. Agarrei-lhe os peitos e larguei-os logo, eram os teus seios pequenos, do tamanho das minhas mãos que eu queria agarrar. Tentei beijar-lhos e, de repente, senti-me asfixiar naqueles úberes fartos... 
Eu queria as tuas pernas esguias entrelaçadas nas minhas, não as dela... Eu queria-te a ti, só a ti, mas só a tinha a ela! E fazia força para pensar que eras tu que estavas ali, mas não estavas, não vinhas, não eras...
Mas, o mais estranho foi o que se seguiu: eu queria logo acabar aquilo, não estava a ser bom, o sacrifício era enorme... Senti como se me soltasse do meu corpo e vi-me a observar aquela cena como se fosse outra pessoa. E o que via? Via-me tenso, num vaivém descontrolado, desajeitado, com os olhos tão cerrados que doíam... e tive pena de mim, pena daquele indivíduo nu, ridículo,  em cima duma matrafona a fazer amor como se fosse o maior suplício, a maior tortura... E vi-me a gritar, vem-te, vem-te! E a cavalgá-la feito louco, desastrado, à bruta! Eu só queria que ela se viesse e que tudo acabasse depressa! Eu só queria sair de cima dela, tomar banho, arrancar todo e qualquer vestígio do corpo dela... E o outro eu observava-me, ria-se descontroladamente e gritava também. Não sei o que dizia!... Por fim, apercebi-me que gritava comigo: vem-te, vem-te, vem-te de uma vez...
E a Vera veio-se e eu fugi para a casa de banho e deixei o outro a rir-se na cara da Vera que dizia, querido, mas tu não conseguiste, que se passa? Nada, não se passa nada, gritei-lhe, dorme. E tomei banho e esfreguei-me e deixei a água correr-me em cima... quente, fria, quente... Quando saí, a Vera dormia.
- Querido, mas nós decidimos que não iríamos construir a nossa felicidade em cima da infelicidade dos outros, lembras-te? Eu não posso fazer mal à Vera nem ao meu marido. Eu disse-te sempre que só poderíamos ser amantes. Tu concordaste. Eu amo-te e não quero que sofras, mas também não quero fazer sofrer outras pessoas, os teus filhos, os meus...
- Eu sei tudo isso, tu foste sempre muito reticente, não querias... Eu insisti e insisti e pensei ser mais fácil do que afinal é! Tu és bem mais forte do que eu, é o que é!
- Olha, é só uma questão de não misturarmos as coisas!
- Parece tão fácil, meu amor! Eu só te quero a ti, quem me dera podermos ser um do outro, só isso, construirmos um mundo só nosso.
- Mas nós temos um mundo só nosso!
- Beija-me, preciso dos teus lábios, dos teus braços, das tuas mãos, da tua pele... Preciso da quietude, da serenidade do teu olhar... Gosto tanto quando me lambes os lábios, quando mos mordes, quando mos chupas... Perco-me com os teus beijos doces, quentes, suaves...
E beijou-o e segredou-lhe ao ouvido o quanto o queria, o quanto o amava e que tudo ia ficar bem, porque um amor assim vale todos os sacrifícios.
E ele puxou-a para cima dele, puxou-lhe o vestido e arrancou-lho pela cabeça, beijou-a, desapertou-lhe o soutien e apertou-lhe os seios com ambas as mãos. Que bem se moldavam... tinham o tamanho ideal, cabiam-lhe tão bem nas suas mãos. E a cintura estreita que adorava apertar e as nádegas firmes que gostava de puxar para si, enquanto o seu membro desabrochava como louco, esticando-se rijo, quente, palpitante entre as coxas de veludo dela, à procura de um refúgio quente e apertadinho...
Ela desabotoou-lhe a camisa, esticou os braços, com as suas mãos nas dele, beijando-o e passando-lhe os cabelos pela cara e pelo pescoço. Ai, as mãos dela cabiam tão bem dentro das suas, os dedos entrelaçavam-se... Tudo tão à medida! 
Agarrou-lhe o rosto e beijou-lhe os olhos, a boca; despenteou-lhe o cabelo, enfiando os dedos por entre o cabelo fino... E foi descendo pelo corpo dele, varrendo-o com os fios de ouro; penetrou-lhe o umbigo com a língua e tirou-lhe, por fim, as calças... 
Estavam, agora, nus... Uniram-se num abraço apertado e gemeram de prazer, um arrepio bom percorreu-lhes todo o corpo; a respiração acelerava... E ele deitou-se por cima dela devagar, olhando-a nos olhos, beijando-a e foi entrando lentamente dentro dela e gemiam os dois e estremeciam entre os braços um do outro e olhavam-se ainda e iam e vinham e iam e vinham, entre beijos doces e loucos, entre juras de amor... E, os braços dela apertavam-no tão fortemente e as pernas entrançavam-se nas dele e as mãos agarravam-se-lhe às nádegas e puxavam-no para si com força e, quando chegaram, enfim, ao cume, ela agarrou-se-lhe aos ombros como se o quisesse levar com ela para aquele abismo bom... Era como se se soltassem deles próprios, dos seus corpos e vagueassem sem destino, sentindo só um imenso prazer... Balbuciavam palavras de amor, incompreensíveis, enlaçados, completamente atados um ao outro... e, depois, era como se reemergissem e ainda abraçados, agitados, a tremer, olharam-se fundo nos olhos e beijaram-se longamente...



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