terça-feira, 23 de abril de 2013

Desencontros



Ele entrou, fechou a porta docemente e olhou em redor. Abriu as portas de correr que davam para a pequena sala e fez deslizar também as da casa de banho. Não estava ninguém. Tanto melhor. Tirou três rosas vermelhas de dentro do saco e separou a mais bonita. As outras duas, esfolhou-as, espalhou algumas pétalas perfumadas em cima da cama e foi colorindo o chão, num rasto vermelho, até à grande banheira. Sentou-se na senhorinha e admirou a decoração luxuosa, olhou para as últimas pétalas e atirou-as para dentro da grande tina branca. Vistas dali, pareciam pequenos corações rubros. Levantou-se e veio deitar sobre mim a última rosa. Ensaiou: no meio, mais à direita, do lado esquerdo, ao meu lado, no meio da cama... Passou os dedos pelas letras desenhadas, sorriu, e dispôs a flor, depois de a beijar,  ao lado do A. Sentou-se no canapé e tirou um cigarro que colocou na ponta dos lábios.
      - Fumas?
      - Não e tu?
      - Um cigarro ou outro, quando estou nervoso.
      - Já beijaste alguma mulher que fuma?
Como não obteve resposta, prosseguiu:
      - Os beijos sabem mal, o hálito... não sabes a ti nem cheiras a ti. O cheiro do tabaco é o teu perfume de marca... Fica impregnado... Quando beijo um homem, quero sentir o seu sabor, o seu cheiro, a textura aveludada dos seus lábios...
Tirou o cigarro da boca, cheirou-o, franziu a testa... Só agora dava conta do cheiro desagradável... Enfiou o cigarro na caixa e deitou-a no lixo.
Olhou o relógio. Ela não vem. Suspirou. Saiu, olhando de relance a rosa e as pétalas que se confundiam com as flores lavradas da colcha.
Fiquei ali a aspirar o perfume inebriante da rosa.
Ouvi passos miúdos no corredor, um toc-toc dos saltos de uns sapatos de senhora. Parou. Rodou a chave. Espreitou. Por fim, decidiu entrar. Olhou à sua volta, nos seus olhos percebia-se um misto de decepção e de alívio. Sentou-se junto a mim, pegou na rosa, aspirou o seu perfume e beijou-a tal como ele fizera. Deitou-se para trás com a rosa sobre o peito. A sua cabeça era um turbilhão de recordações, de lembranças: conheceu-o nas redes sociais, ele pedira-lhe amizade. Levou dias até aceitar, visitou a página dele inúmeras vezes, leu tudo o que ele publicou, leu comentários, viu fotos...  Ele deve ter feito o mesmo, mas foi mais ousado: comentou as suas fotos, escreveu mensagens, pequenos poemas... Por fim, não resistiu e aceitou-o no seu núcleo de amigos. Todos os dias “conversavam” um pouco. Quando ela se demorava, ele escrevia um “finalmente” maiúsculo e um “pensava que te tinha acontecido alguma coisa”. Ele insistiu para falarem ao telefone, deu-lhe o número vezes sem conta e ela apagava-o juntamente com a conversa tida...
Suspirou alto,  ergueu-se, alisou o vestido, sacudiu o cabelo que lhe caía em cascata sobre os ombros, pegou na mala e na rosa, sorriu-me e saiu.
Desencontros, pensei.

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